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Quando a tragédia encontra o musical
Estilização excessiva não tira o brilho de
Amor, sublime amor, uma bela adaptação de Romeu e JulietaPor Edilson Saçashima
A princípio, levar à tela uma tragédia sob a forma de musical parece um paradoxo. Afinal, como é possível tratar de temas trágicos em um gênero que se caracteriza essencialmente pela alegria de viver? A resposta é Amor Sublime Amor, uma das mais célebres adaptações do clássico Romeu e Julieta, de William Shakespeare, para o cinema.
A história é conhecida: um rapaz e uma jovem de famílias rivais se apaixonam. O relacionamento é proibido pelos familiares, o que leva o casal a um final trágico. Robert Wise e Jerome Robbins adaptaram esse enredo para a Nova York da década de 60. Assim, Romeu e Julieta se tornaram Tony (Richard Beymer) e Maria (Natalie Wood). As famílias venezianas descritas por Shakespeare viraram gangues de adolescentes chamadas Jets e Sharks.
O apelo comercial talvez seja a melhor explicação para essa mudança drástica de contexto. Na época em que o filme foi produzido, a rixa entre brancos e porto-riquenhos era tema recorrente na imprensa norte-americana. Logo, não foi preciso queimar muitos neurônios para transformar Tony e os Jets em um grupo de brancos que são rivais dos Sharks, porto-riquenhos liderados por Bernardo (George Chakiris), irmão de Maria.
Essa mudança também permitiu que o filme apresentasse pitadas de crítica social. Em um dos números musicais, os porto-riquenhos revelam o preconceito da sociedade norte-americana em relação aos imigrantes, arranhando a imagem de que os EUA são o país das oportunidades.
Os diretores ainda acrescentaram uma boa dose de violência. O conflito entre gangues, as mortes, o preconceito e uma tentativa de estupro são elementos que compõem esta tragédia moderna. No entanto, tudo isso aparece de forma estilizada. A brutalidade da violência é traduzida na harmonia da dança e nas letras das canções, permitindo que o espírito da tragédia se adequasse à forma de musical. Por exemplo, a disputa territorial entre os grupos rivais se transformou em um exercício de virtuosismo do coreógrafo Jerome Robbins, que planejou a cena de tal forma que o embate se desse ao longo de um bairro inteiro.
As coreografias e as canções não são os únicos elementos que refletem a estilização do filme. De cenários ao figurino, tudo revela um planejamento exaustivo, um cuidado excessivo para que cada objeto em cena tivesse papel relevante para a trama. O figurino de Maria é um exemplo. Ela surge pela primeira vez na tela vestida de branco com um detalhe em vermelho. Somente com esses dados podemos verificar que o diretor antecipa a função da personagem através de suas roupas. O branco revela o papel de mediadora do conflito, de emissária da paz. Maria será a responsável pela tentativa de pôr fim às hostilidades. Mas terá sucesso? O vermelho do vestido é um indício de que não. Na última cena, com a perda de seu amado, Maria conhece o ódio, o mesmo sentimento que alimentava as hostilidades entre as gangues. "Agora, também posso matar porque sei o que é ter raiva", diz. Seu estado de espírito fica enfatizado pelo vestido que usa, todo vermelho.
A estilização poderia ser um percalço na apreciação de Amor Sublime Amor mas não é o que acontece. Quase quarenta anos depois, o filme continua cativando o espectador, em grande parte devido à química perfeita das músicas de Leonard Bernstein e das coreografias criativas de Robbins. Não é à toa que o filme arrebatou 10 estatuetas do Oscar e seja considerado por alguns críticos como o melhor musical de todos os tempos.
Amor Sublime Amor (West Side Story, 1961). De Robert Wise e Jerome Robbins. Com Natalie Wood, Richard Beymer, Russ Tamblyn, Rita Moreno, George Chakiris. 154 min. Cotação: * * * *