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Vivendo do passado

Apesar de algumas boas seqüências, Vivendo no Limite é decepcionante

Por Fabio Bense

 

A maior parte das pessoas que assistiram Vivendo no Limite gostaram do filme. Realmente, o filme é bom, acima da média, com imagens de impacto, muitas vezes belas apesar de cruéis, provenientes da habilidade de um dos maiores cineastas da atualidade: Martin Scorsese. Mas, também é verdade que a maior parte destas pessoas que gostaram do filme não conhecem bem a carreira deste ótimo diretor.

Quem a conhece facilmente chegará a uma constatação: analisando o ambiente onde se desenrola o filme (ambiente urbano); o tema (final de semana de um paramédico estressado com a rotina de seu trabalho, que consiste em, na maioria das vezes, salvar pessoas a beira da morte ou de prestar as mais delicadas assistências, como partos de jovens miseráveis que acabaram de sair da adolescência) e, acima de tudo, o clima meio que melancólico do filme (dado o caráter do personagem central, um ser humano angustiado com a podridão social a sua volta), o cinéfilo pensará estar a mercê de assistir um novo Taxi Driver, o extraordinário filme dirigido por Scorsese em 1976.

Não que isto seja um defeito. Que bom seria se Vivendo no Limite se parecesse em qualidade como grande e inesquecível filme estrelado por Robert De Niro. Mas são tantos os elementos semelhantes que é impossível não fazer a comparação. Além dos já enfocados nesta resenha, ambos os atores protagonistas são carismáticos (o já citado Robert De Niro em Taxi Driver e Nicholas Cage em Vivendo no Limite, este fazendo par com Patricia Arquette ), há personagens secundários desajustados, etc.

E, dentro desta comparação, logo após assistir Vivendo no Limite, ao invés de ficar com o filme na lembrança (o que geralmente ocorre quando você assiste um filme de que gosta muito) o que me veio à lembrança foi a saudade de Taxi Driver, mais cruel e realista no enfoque das neuroses urbanas. É também muito mais emocionante e dotado de diálogos superiores, que custam a sair da lembrança do apaixonado pelo bom cinema (como o diálogo insano entre De Niro e o colega motorista de táxi).

Mas, o que fez Vivendo No Limite ser apenas um filme apenas legal não um grande espetáculo? A indefinição quanto ao rumo que o filme deveria tomar. Será o novo filme de Scorsese um drama urbano ou, o que por vezes ele deixa a impressão, uma comédia urbana? Por várias cenas, o intuito do filme pareceu ser fazer o espectador cair na gargalhada. Qual a conseqüência disto?? O drama perde a força, tudo parece meio irreal, pouco pungente. Com relação a Vivendo no Limite, sou da mesma opinião do abade mentor dos assassinatos em O Nome da Rosa: fazer rir foi pecado. Para isto, o próprio Nicholas Cage colabora: embora seja sempre uma presença carismática, sua própria fisionomia está mais para a comédia do que para o drama.

É evidente aos olhos que qualidades não faltam ao filme: há boas passagens do roteiro, com lições inspiradas de humanismo, algumas boas tiradas, cenas bem filmadas (como na hora em que o personagem gravemente ferido, preso as pilastras de um prédio no coração da metrópole, observa Nova Iorque do último andar do edifício). Mas nem de longe os personagens carregam a sutileza de sentimentos exibidos em Taxi Driver. Scorsese, outros talentos ligados a produção poderiam render um grande filme, o que não acontece. Quem conhece o potencial dos nomes citados saí um pouco frustrado após a exibição de Vivendo no Limite.

Aliás, é bom que se diga, Scorsese, assim como Roman Polanski, parece ter caído de produção. Seus últimos filmes (com exceção de Cassino) não chegam aos pés de filmes seus do passado, como Taxi Driver, Touro Indomável, Caminhos Perigosos, entre outros. Dar vida? Ter uma identidade? Reconhecimento? Será que essa comédia aparentemente despretensiosa é a mais nova reflexão sobre a essência da existência humana, um estudo sobre o que é ser humano? Pode ser que sim. Mas se não for, pelo menos é diversão garantida por quase duas horas.

 

VIVENDO NO LIMITE (Bringing Out the Dead, EUA, 1999). De Martin Scorsese. Com Nicholas Cage, Patricia Arquette, John Goodman, Ving Rhames. 120 min.