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Passando a perna no tédio
A Trapaça consegue ser divertido sem cair na mesmice ou recorrer aos cliches
Por Rodrigo Flores
Em pleno Sábado a noite, lá estava eu, estático, encarando uma fila quilométrica para assistir A Múmia em um Shopping Center de São Paulo. Como sempre, o número de ingressos era inferior à quantidade de pessoas à minha frente. Para não perder a viagem, resolvi arriscar e ver A Trapaça. O título era sugestivo: afinal, quem esperaria boa coisa de um filme cujo único ator de expressão era o grisalho Steve Martin interpretando um personagem sério?! Entrei no cinema achando que o trapaceado tinha sido eu. Querem saber de uma coisa? O filme é legal, embora demore um pouco para decolar. A primeira metade é lenta, detalhista e cansativa, conseqüência de um roteiro preocupado em apresentar minúcias que servem de pano de fundo para o suspense que só começa de fato na metade do filme. O roer de unhas e as mãos suando só aparecem mesmo nos últimos 20 minutos, quando a trama torna-se empolgante e compensa a espera. A sensação depois da exibição é que A Trapaça é um raro exemplo de thriller divertido e inteligente, sem perseguições de carros, explosões e metralhadoras giratórias. Um talentoso e jovem executivo (Campbell Scott) descobre uma fórmula que trará milhões de dólares de lucro para a sua empresa. Porém, ele não tem nenhuma garantia de que será recompensado por sua descoberta. Durante uma viagem de negócios, conhece um influente homem de negócios (Steve Martin) que passa a aconselhá-lo. É o início dos problemas - e da diversão dos espectadores. O resto, só vendo para saber... A Trapaça é dirigido pelo competente e pouco conhecido David Mamet, que carrega em seu currículo o roteiro do impecável Os Intocáveis (The Untouchables, De Palma, 1987), talvez um dos melhores filmes dos anos 80. Embora não haja comparação, a sobriedade da narrativa esta presente em A Trapaça, provando que Mamet não esqueceu a lição do mestre De Palma.
A primeira impressão sobre o elenco se confirmou. O sem-graça Steve Martin é risível interpretando um personagem sério. Os demais atores chegam a ser tão inexpressivos quanto os teletubbies. Mesmo sem personagens marcantes, a trama não perde força. Para quem achava ter jogado o dinheiro do ingresso no ralo, A Trapaça foi uma agradável surpresa. Não é brilhante, mas garante a diversão.