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O injustiçado

Traffic, de Steven Soderbergh, foi o grande injustiçado do Oscar 2001

Por Rodrigo Flores

 

Quando ajudei a fundar o Cinedebate, há alguns anos, o objetivo era aproveitar a democracia da internet em favor da liberdade de expressão. Nada de textos em cima do muro, nada de meias opiniões, nada de enrolação. Quando há opiniões claras, surge a possibilidade do debate.

Pois bem, aí vai a minha opinião. O que fizeram com Traffic na cerimônia do Oscar foi uma grande sacanagem. Entre os cinco indicados para a categoria de melhor filme, nenhum concorrente merecia tanto levar a estatueta para casa como Soderbergh e sua turma.

Traffic dá uma visão realista do caminho trilhado pelas drogas, de sua origem nos países latino-americanos (o México, no caso) até o consumidor final (garotos bem-nascidos dos EUA).

A narrativa é fragmentada em três núcleos, a la Robert Altman. O primeiro, na fronteira entre o México e os EUA, tem como destaque o policial Javier Rodriguez Rodriguez (vivido pelo excelente Benicio del Toro), que luta para conter o tráfico em meio à corrupção. No segundo, a cada-dia-mais-linda Catherine Zeta-Jones decide comandar a venda de drogas nos EUA após a prisão de seu marido. Por fim, o insosso Michael Douglas 'interpreta' um alto funcionário do governo que descobre ter uma filha dependente química.

O filme é frio nas imagens e na narrativa. O diretor dá luz e cor própria para cada um dos núcleos, explorando a força das imagens em tomadas em preto e branco ou com excesso de claridade. O roteiro, bem amarrado, funciona bem e não deixa o ritmo cair.

Sorderbergh optou por dar pesos iguais a cada um dos núcleos, como se fossem anéis de uma corrente. Com habilidade, fez com que cada uma das histórias atingisse alternadamente momentos de clímax. Esse artifício ajuda a manter o espectador ligado durante as quase duas horas e meia de projeção.

Critica-se Traffic por ser maniqueísta, uma vez que a droga parte sempre do "vicioso" México em direção a "vítima" Estados Unidos. Injustiça, na minha opinião. Sorderbergh mostra podridão dos dois lados da fronteira. Também é indiscutível que a América Latina é grande produtora de cocaína. Um filme que se propõe realista não pode abrir mão dos fatos em nome do politicamente correto.

Enfim, Traffic é um soco no estômago. A Academia de Hollywood, pelo jeito, não gostou.

 

TRAFFIC (idem, EUA, 2000). De Steven Soderbergh. Com Michael Douglas, Don Cheadle, Benicio Del Toro, Luis Guzmán, Dennis Quaid, Catherine Zeta-Jones. 147 min