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A queda do império Holywoodiano
Spartacus é épico de primeira e traz crítica ácida à Hollywood
Por Edilson Saçashima
Kirk Douglas é Spartacus, escravo forte e inteligente que é comprado por um traficante (Peter Ustinov) para ser preparado como gladiador. Mas durante uma rebelião, ele e outros escravos conseguem se libertar e se unem para enfrentar as forças do Império Romano e conquistar a liberdade.
Spartacus é um épico nos moldes hollywoodianos. A obra exala grandiosidade em cada fotograma. Já na abertura, em que a música composta por Alex North ecoa solitária na tela escura, o espectador é surpreendido por uma obra peculiar. Os letreiros — cuja composição foi supervisionada por Saul Bass (autor, entre outras, da abertura de Psicose, Intriga Internacional e Um Corpo que Cai, todos de Alfred Hitchcock) — reforçam essa impressão, que irá atingir seu ponto culminante nas cenas de batalhas minuciosamente orquestradas. Não surpreende, portanto, que o filme tenha recebido Oscars de Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), além do Globo de Ouro de Melhor Filme.
Mas, ironia do destino, Spartacus é um filme de Hollywood que se opõe ao próprio sistema. O gênero épico, que teve seu representante maior na figura do cineasta Cecil B. DeMille, ganha novos contornos nas mãos do roteirista Dalton Trumbo. Ele foi um dos nomes que constaram na lista negra de Hollywood na época do macarthsmo, um dos períodos mais obscuros na história dos EUA na segunda metade do século. Esse fato parece ter contaminado a obra, escrita e produzida em um período em que os norte-americanos ainda viviam o rescaldo do incêndio provocado pelas perseguições aos comunistas.
O filme é construído a partir do ponto de vista dos vencidos. São os subjugados que ganham vozes e ação neste filme. Eles lutam por liberdade, causa que será perpetrada mesmo com a derrota dos escravos. A vitória, deve-se ressaltar, não está distante, pois não é por acaso que o roteirista situa sua ação no decadente Império Romano.
Pode-se verificar nesse enredo uma crítica ao sistema de estúdios, que no final dos anos 50 conhecia seu crepúsculo. Spartacus seria uma indicação da mudança de valores que ocorria no núcleo criativo da indústria cinematográfica, em que diretores e atores se libertavam da rigidez espartana dos estúdios enquanto que o sistema implodia. No filme, essa situação é metaforizada na figura de Antoninus (Tony Curtis) e Crassus (Laurence Olivier). Assim, a arte, simbolizada por Antoninus, escravo responsável por declamar versos e fazer truques para o entretenimento da corte, ganha prestígio. Em contrapartida, o ouro, o lucro das conquistas, personificado por Crassus, perde espaço em uma sociedade crepuscular. Além disso, escravos como Antoninus e Spartacus serão responsáveis pela desestruturação do sistema constituído.
A crítica ao macarthismo não poderia ficar de fora. O filme ressalta em diversos momentos a virtude da lealdade. Será ela que irá pautar o relacionamento dos escravos, mesmo que isso os condene à morte. Na vida real, a lealdade de Trumbo aos seus princípios o condenou ao ostracismo. Ele se recusou a denunciar colegas de profissão que seriam supostos comunistas nos tribunais montados pelo senador MacCarthy e, por isso, foi banido dos estúdios.
O responsável direto por esta obra chegar às telas é Kirk Douglas, que também foi o produtor executivo do filme. Também se deve a ele a inclusão de Stanley Kubrick no projeto. O ator havia se desentendido com o diretor Anthony Mann, que abandonou as filmagens. Foi assim que Kubrick, com quem Douglas já havia trabalhado em Glória Feita de Sangue (1957), assumiu a direção. Mesmo com as filmagens em andamento, o cineasta conseguiu imprimir sua marca, presente no rigoroso perfeccionismo que rege muitas dos planos de Spartacus. Destaque especial à impactante cena do confronto do exército romano contra os escravos, em que toda uma planície é tomada pelos soldados de Roma. O efeito é ainda mais devastador quando levamos em conta que a filmagem foi feita em uma época em que os efeitos especiais ainda andavam a passos lentos, o que impedia a multiplicação de personagens em cena através de recursos computadorizados.
O filme é considerado uma obra menor de Kubrick e um épico de dimensões moderadas em comparação ao padrão hollywoodiano. É verdade. Mas seria heresia defender que Spartacus é um cinema menor.
Cotação: ****
Spartacus (Spartacus, 1960), de Stanley Kubrick. Com Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Tony Curtis. 183 min.