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Quando a "arte" encontra a Arte

Shakespeare Apaixonado esmorece a vida do maior dramaturgo inglês

Por Igor Ribeiro

Ainda hoje é impossível rotular grande parte das obras de inspiração shakespeareana de repetitiva ou redundante. Montagens exageradas acontecem; os calouros abusam de clássicos do mestre inglês; grupos alternativos reinventam o autor e transfiguram seu trabalho - e são quase 500 anos de teatro reciclável e sempre admirado. Por mais díspares que sejam as representações de Shakespeare, dificilmente não nos proporcionarão o mínimo de emoção, tanto em escrache como em vanguarda. E é importante lembrar que tudo acontece num constante processo de destruição/reconstrução, tão cíclico e rico em possibilidades, que o tempo se torna mero espectador dos nossos delírios e percepções. Só que rupturas acontecem. Mesmo em processos como este, que parecem seguros de qualidade e durabilidade. Advirto que é fato que Shakespeare tão cedo não se esgota, a não ser que antes afundem a figura dele.

Assim, Holywood não perdeu sua previsibilidade ao nos apresentar Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love, de John Madden. EUA/Inglaterra, 1998, 122 min.), que passou perto da ruptura acima mencionada. O filme é bem intencionado, com uma cenografia adequada e com uma bonita fotografia; de enredo linear, ritmado por uma cadência épica que agrada; e, principalmente, com um contexto coerente - o que garante a manutenção da boa ordem shakespeareana (não pela sua originalidade, mas pela apologia ao day after, que aparece no resumido e sutil final feliz e, que por isso mesmo, nem faz parte do filme).

O que critico é que Hollywood tem passado por um processo de coadjuvação e esmorecimento que, mesmo não restrito a Shakespeare Apaixonado, faz-se notável principalmente neste filme. Coadjuvação seria a escalação dos mais insossos atores e atrizes para papéis principais, os quais chegam a ser sombreados por atores coadjuvantes de muito maior calibre e respeito. Em Shakespeare Apaixonado, Joseph Fiennes e Gwyneth Patrow - nos respectivos papéis de Will Shakespeare e Viola De Lesseps - deixam a desejar na pele de tais personagens. Faltam-lhes a realidade de uma Inglaterra medieval que pressionava mecenas, artistas, comerciantes, clero e exército para que as mais luxuosas vontades da rainha tornassem-se realidade. Tanto que o papel do bufão Sr. Henslowe cai como uma luva para o ator Geoffrey Rush - seu personagem enfrenta as maiores adversidades para manter o Teatro Rose na bélica cena cultural que embarca Londres. A também coadjuvante Judi Dench dá à matrona Elizabeth tamanha firmeza e austeridade que a impressão de realeza torna-se perfeita. Tanto ela quanto Geoffrey Rush pisoteiam técnica e espiritualmente nos atores principais. Já superados no nome e no talento, o que resta a Fiennes e Paltrow é embasbacarem-se pela exagerada e enternecida representação de Shakespeare e sua musa.

Já o esmorecimento ao qual me refiro é também conhecido pelo fenômeno cucaracha, que invade quase todas produções televisivas e grande parte da cinematográfica. A hipérbole; a repetição; o lirismo exarcebado; a constante metaforização; a representação forçada: são características kitsch que se fizeram tão presentes e aparentes, que quase remontam o filme à uma novela mexicana. Como se não bastasse a poesia que naturalmente domina a obra shakespeareana e a faz sensivelmente evocativa, Shakespeare Apaixonado reforça este traço tornando o ambiente quase que inverosímil.

O que resta é contentarmo-nos com o filme como um descompromissado entretenimento chá-das-cinco. Dá para assistir e dar risadas, chorar, indignar-se e aliviar-se. Aliás, é exatamente o que seus moldes pede que sintamos: a impressão de um romance de estilo clássico. E não a expressão de uma produção de fácil assimiliação.