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Sexto sentido assusta com inteligência

Roteiro e direção primorosos garantem quase duas horas de tensão

Por Edilson Saçashima

 

O Sexto Sentido é um verdadeiro oásis em meio à produção recente de filmes de terror. A obra de estréia do diretor e roteirista M. Night Shyalaman não tem um bando de adolescentes histéricas fugindo de assassinos mascarados nem abusa de efeitos especiais. Pelo contrário. Com um roteiro coeso, um elenco afinado e a mão firme na direção, o cineasta indiano de apenas 29 anos conseguiu realizar um filme assustador e que deixa o espectador colado na poltrona. Resultado: mais de US$ 250 milhões faturados só nos EUA.

O motivo do sucesso é simples: uma boa história bem contada. Bruce Willis é Malcolm Crowe, psicanalista infantil de sucesso, casado e feliz. Na noite que recebe um prêmio pelos serviços prestados, ele reencontra um antigo paciente. Perturbado, o sujeito afirma que Crowe arruinou sua vida e atira na barriga do psicanalista e depois se suicida. No outono seguinte, Crowe se encontra na pior: vive uma crise no casamento e sua carreira está acabada. No entanto, ele visita um garoto que pode representar sua ressurreição. O menino, chamado Cole Sears (Haley Joel Osment), não consegue ter uma vida normal. O motivo: ele vê pessoas mortas.

Com essa história em mãos, Shyalaman desenvolveu um filme assustador. Mas os sustos não decorrem de almas penadas voadoras em corredores sombrios. O diretor privilegia a tensão provocada pelo tema. Por exemplo, em uma manhã, a mãe de Cole (Toni Collette) está preparando o café da manhã. O garoto está na mesa da cozinha esperando ser servido. A câmera acompanha a mãe. Ela vai para a cozinha, repara numa mancha na gravata do garoto e vai trocá-la. Vai a lavanderia, pega outra gravata e, quando volta, todas as portas dos armários estão abertas. Detalhe: toda a cena, que dura poucos segundos, foi filmada sem corte, provocando maior impacto. Só esse fato seria suficiente para mostrar a maestria do diretor no manejo da linguagem cinematográfica.

Além disso, o filme é construído de longos planos, fato raro nesses dias em que o cinema mais parece um videoclip de duas horas. A estrutura de O Sexto Sentido faz com que o que ocorre na tela ganhe maior relevância. É como se o diretor quisesse que os espectadores reparassem nos diálogos travados entre o garoto e Crowe ou nas relações entre os personagens. Aliás, esse é um dos fatores que torna o final do filme surpreendente como raras vezes se viu no cinema. Por isso, mantenha seus cinco (ou seis) sentidos em alerta.

Shyalaman foge das soluções fáceis. Os sustos nas aparições dos mortos estão mais no manejo cuidadoso da música e da edição ligeira do que de faces e corpos distorcidos. Mas o terror não está só nisso. Todos os mortos são vítimas de situações do nosso cotidiano como a mulher que era espancada pelo marido, um garoto curioso que encontra uma arma em sua casa ou a jovem morta num acidente de trânsito. Pelo menos esses fantasmas têm motivos de estarem atormentados. Já alguns mortos de outros filmes...

Apesar de uma falha grotesca de produção (o microfone de captação do som ambiente aparece em algumas cenas — será que é mais uma assombração?), O Sexto Sentido está sendo cotado para o Oscar, com destaque especial para o garoto Haley Joel Osment, sério candidato ao prêmio de ator coadjuvante. Independente da estatueta, o filme já conseguiu um grande feito: ele é uma obra que ficará assombrando nossas mentes por um longo período por ter deixado nossos nervos à flor da pele por quase duas horas. O que não é pouco nos dias atuais.

 

O SEXTO SENTIDO (The Sixth Sense, EUA, 1999) Direção de M. Night Shyalamana. Com Bruce Willis, Haley Joel Osment, Toni Collette, Olivia Williams, Trevor Morgan, Donnie Wahlberg, Peter Tambakis, Bruce Norris, Mischa Barton.
106 min.