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O Quarto Poder é burocrático

Filmes de Costa Gavras decepciona na abordagem da imprensa marrom

Por Fabio Bense

Por recomendação de alguns amigos, resolvi alugar O Quarto Poder, filme do ótimo diretor Costa-Gavras (de Z, e Missing - O Desaparecido), e estrelado por atores famosos, como Dustin Hoffman e John Travolta. Junto com a recomendação dos amigos, fiquei sabendo por eles que a trama abordava a profissão que escolhi: o jornalismo. Decidi, então, alugar o filme, até por uma questão profissional.

Porém, o filme não me agradou. Trata-se da estória, já um tanto batida, do sensacionalismo na imprensa e do grande poder que esta detém, como órgão de formação de opinião. A história é simples: repórter em declínio na profissão (Dustin Hoffman), presencia uma situação inusitada num museu: um dos seguranças do estabelecimento (Travolta) - que havia sido demitido a fim de se conseguir um corte de despesas –, volta ao museu disposto a recuperar o antigo emprego. Numa atitude desesperada, pede o cargo de volta ameaçando a diretora do museu com um arma. No momento que isto acontece, o museu está repleto de crianças em uma excursão escolar. O repórter, que se encontrava no local para uma pequena reportagem sobre as dificuldades financeiras pela qual a instituição passava, vê a chance de contar um grande história e recuperar o prestígio na profissão.

A história ganha uma proporção dramática maior quando ocorre um acidente: a arma que estava com o personagem interpretado por Travolta é disparada acidentalmente e fere o outro segurança do museu. A notícia é passada por Hoffman à emissora de TV em que trabalha, que lança no ar o acontecimento em primeira mão. Sem dúvida, diante da dramaticidade dos fatos, é a grande chance que Hoffman tem de se "reerguer" em sua carreira, abalada devido a um atrito com um jornalista hierarquicamente superior da sua própria emissora (devido a isto, a personagem de Hoffman foi transferida para uma "espécie" de filial menor deste canal de TV ).

Bem, o circo está armado. Percebendo-se o tom da narrativa e sabendo do caráter francamente crítico de Costa-Gavras, já se imagina o que veremos a seguir: o repórter se aproveitando do fato, engrandecendo-o, exagerando ao relatá-lo, ou seja, "vendendo o seu peixe" para um espectador ávido por notícias-trágicas. Hoffman segue a receita ao pé-da-letra. Usa todos os expedientes possíveis: desde afirmar que a situação é dramática e calamitosa quando no momento o personagem vivido por Travolta brinca com as crianças até colocar a mulher do segurança para conversar com ele, causando choro de ambos, o que faz o fato ganhar status de novela mexicana..

Porém, se o circo está armado, o espetáculo fica aquém do esperado. Como se viu, o intuito do filme é mostrar o poder da imprensa, a falta de ética da imprensa sensacionalista que aproveita dos dramas humanos, contando os fatos da maneira mais exagerada possível, para vender jornais ou conquistar maior audiência. Hoffman conta a sua versão dos fatos, exagera, toma decisões quanto as negociações dos reféns, manipula a inocência de Travolta. Sabe-se que tal tendência, em parte da imprensa, é real. O problema do filme não é, portanto, falta de verossimilhança. O assunto, apesar de já ser um clichê no cinema diante das abordagens de outros filmes, sempre tem interesse. O defeito de O Quarto Poder é, simplesmente não ter explorado a história ao máximo, ou melhor, como deveria.

Basta comparar com os outros filmes sobre o tema. Aceito e perdôo aqueles que acham o O Quarto Poder o máximo sem nunca ter assistido o clássico de Billy Wilder, A Montanha dos Sete Abutres, de 1951. Porém, é dever informar que o filme de Wilder, feito há mais de quarenta anos atrás, tratou o assunto de maneira muito mais real, cruel e dramática. Ou seja, explorou o tema ao máximo.

No filme de Wilder, que se passa boa parte do tempo em um vilarejo norte-americano, um homem fica soterrada por acidente e aguarda resgate. Um repórter, vivido por Kirk Douglas, pai do ator Michael Douglas (de Atração Fatal e Proposta Indecente) se aproveita do acidente para criar situações de drama e horror, visando progredir na profissão. Em determinado momento do filme, a equipe de resgate discute qual a maneira mais apropriada para retirar o homem. Chegam a conclusão que há duas: uma mais rápida e outra mais lenta. Douglas consegue que a escolha seja pelo método mais demorado, a fim de que o seu jornal, o vilarejo (que virou uma "espécie" de ponto turístico) e o comércio local lucrem com o sofrimento humano.

Mesmo num síntese rápida sobre o roteiro, como a feita acima, percebe-se que a A Montanha dos Sete Abutres é um grande filme. Há detalhes cruéis, até sórdidos, como o fato do homem agradecer constantemente a Douglas pela ajuda, sem imaginar que este está causando a sua desgraça. Em certo momento, o homem soterrados já há vários dias está tão fraco que nem consegue falar. Douglas sofre então uma crise de consciência e pede que seja adotado o método mais rápido. Inútil. Já e tarde demais para isso, muita terra já fora escavado na primeira operação. Mudar o método agora culminaria em um grande desabamento.

Muitas conseqüências à atitude amoral de Douglas se sucedem na trama, de maneira que as vida do repórter e do homem soterrado nunca mais será a mesma. No final do filme, o espectador tem a certeza de que A Montanha dos Sete Abutres explorou completamente o tema da imprensa marrom. Há a decadência física de personagem soterrado e moral do repórter. Conhece-se, com riqueza de detalhes, caráter sórdido e mesquinho do personagem vivido por Douglas. Os personagens secundários também são amorais, retratando a crise de valores e a decadência moral também da sociedade. Enfim, o filme de Wilder conseguiu que uma boa idéia se desenvolvesse completamente.

Não é isso que acontece em O Quarto Poder. O personagem de Travolta não sofre como o homem preso na terra de A Montanha.... Para se ter uma idéia, um dos maiores temores de Travolta é o medo de represália pela esposa. Já Hoffman não consegue transmitir todos os sentimentos e feições de um jornalista mau-caráter. É um canalha "meia-boca", que fala baixo, indecisamente, ou seja, não passa o caráter sórdido que um jornalista que forja situações precisa aparentar.

Tudo se passa de uma maneira que se pense da seguinte maneira: "sim os jornalista são canalhas, o mundo é porco, mas vamos nos conformar". Isto porque os acontecimento são exibidos na tela de maneira tão fria, burocrática, que não provoca indignação. Pode-se definir o personagem vivido por Hoffman como um gentleman do jornalismo sórdido. É claro que o filme exibe aquelas cenas previsíveis da "sabedoria" da imprensa marrom, feita para "chocar" os inocentes espectadores, como quanto Hoffman repreende a estagiária que o acompanha por esta ter ajudado a vítima do disparo acidental ao invés de filmar o homem agonizando, ou mesmo a transformação da estagiária, que de "ingênua" vira, no final do filme, repórter "canalha", ou, sei lá, "esperto", dependendo do ponto de vista de quem enxerga a questão. Tenta nesta cenas parece-se real, cruel. Afirmar: "veja como neste filmes mostramos a realidade dura e crua". Mas é tudo frio, burocrático, sem emoção. Mesmo o desfecho é previsível e o arrependimento do Hoffman inconvincente, devido a uma interpretação que não consta entre as melhores do conhecido ator.

Para não dizerem que sou um "saudosista ultrapassado" ao comparar O Quarto Poder com um filme feito há mais de 40 anos atrás, pode-se traçar um paralelo com um filme mais recente, nacional, feito em 1996: Jenipapo, de Monique Gardenberg. Nele há uma melhor retratação da crueldade, frieza, sordidez que realmente parece existir em alguns veículos de comunicação. Sem dúvida, há muito mais fidelidade à realidade dos órgãos de imprensa do que em Quarto Poder. Jenipapo conta a estória de um jornalista que inventa uma entrevista com um padre, que exerce importante papel na questão da reforma agrária de um região do país. O jornalista cria a entrevista pelo fato do padre manter-se inacessível a reportagens. No desespero pela proximidade de seu dead line, resolve inventar tudo. As conseqüências de tal atitude são avassaladoras.

Jenipapo tem personagens convincentemente amorais, "olho na realidade". O Quarto Poder não. É frio, insuficiente e decepcionante. E nos permite pensar numa terrível possibilidade: será que o grande Costa-Gavras, depois de realizar obras polêmicas, que mexe em "vespeiros" políticos, virou burocrático, filmando nos EUA?? Se sim, ficará constatado que Hollywood é realmente a "terra dos sonhos" e que, pisando nesta terra, tudo realmente pode acontecer.