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Lirismo e crítica social na medida certa
Tavernier lança um olhar humanista sobre a França contemporânea em
Quando Tudo Começa...Por Edílson Saçashima
Dramas envolvendo crianças tendem a cativar o público. O efeito não é diferente com Quando Tudo Começa.... A mais nova produção de Bertrand Tavernier (Por Volta da Meia-Noite, A Isca) foi sucesso de bilheteria na França em 1999 — ultrapassando 1,5 milhão de espectadores — e recebeu o prêmio da crítica internacional e o prêmio ecumênico no Festival de Berlim do mesmo ano. Mas quem pensa em ir ao cinema esperando um banho de lágrimas irá se surpreender. Uma grata surpresa, diga-se. O filme consegue mesclar com sucesso crítica social e lirismo.
Phillipe Torreton é Daniel Lefebvre, diretor de uma escola pública primária em Hernaing, uma pequena cidade do interior da França que sofre com alto índice de desemprego. Não bastasse esse grave problema social, a miséria, a falta de assistência social, o descaso do governo e os problemas domésticos vividos pelas crianças acabam influenciando no cotidiano da escola e dos alunos. No entanto, Daniel, ao lado de outros professores, tenta combater e superar esses problemas.
Essa história tinha todos os ingredientes para se tornar um filme lacrimoso e piegas. Mas Tavernier consegue manter o lirismo e o olhar terno sobre seus personagens sem apelar a sentimentos fáceis. Essa impressão se deve, principalmente, à forma como o diretor fez o filme. Quando Tudo Começa... foi filmado como um (quase) documentário. O uso de câmera na mão faz com que se tenha a impressão de que as personagens se deslocam com liberdade sobre o cenário. Elas parecem livres de marcação, como se fossem dotadas de livre arbítrio. Enfim, elas não atuam, vivem. E a câmera se restringe a registrar os movimentos delas.
Com isso, Tavernier consegue traçar um retrato da França contemporânea. E o que se vê não é nada agradável. Nota-se uma crítica virulenta ao liberalismo do governo francês. Tanto que, nas cenas em que aparecem autoridades ou burocratas franceses, eles se referem às pessoas como meras estatísticas. Um insulto para o humanismo de Tavernier.
Paralelamente à crítica social, o diretor também parece preocupado em traçar um painel da relação entre pais e filhos. Assim, nos defrontamos com o relacionamento entre Daniel e seu pai, entre a atual namorada de Daniel, Valéria (Maria Pitarresi), e o filho dela, fruto de um caso mal-sucedido, e dos alunos com seus pais desempregados ou violentos.
Enfim, nada escapa ao olhar crítico e humanista de Tavernier. Sorte dos espectadores, que poderão desfrutar de uma obra que comove ao mesmo tempo que faz pensar. Afinal, a realidade apresentada no filme não é muito diferente daquela que encontramos no Brasil.