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Esqueçam o Leo!

A Praia é a parábola da mudança do diretor Danny Boyle para Hollywood

Por Rodrigo Flores

 

\ Mesmo sem concorrer ao Oscar ou qualquer outro prêmio importante, A Praia centraliza as atenções e as bilheterias onde é exibido. A explicação tem dois olhos azuis, um rosto de bebê, um talento questionável e um nome: Leonardo DiCaprio. Ao mesmo tempo em que arrasta o público para as telonas - a invasão seria muito maior se o filme não fosse proibido para maiores de 18 anos - o "menino de ouro dos produtores" também atrai a atenção dos críticos, sempre prontos e afiados para escrachar os dotes cênicos do rapaz. E é isso que se lê: páginas e mais páginas sobre os olhos azuis e tudo mais. E o mais importante? E o filme? Bem, esse parece que poucos resolveram realmente prestar atenção.

Por isso, esqueça que A Praia é o mais novo filme de Leonardo DiCaprio. Acredite, o garoto não é importante. O programa fica muito mais atraente para quem vai ao cinema para ver o último lançamento do ótimo diretor Danny Boyer (Trainspotting, Cova Rasa).

Em A Praia, Boyer conta a história de Richard, um garoto urbano, insatisfeito, que vai até a distante Tailândia em busca de aventuras. Lá descobre uma ilha paradisíaca, cheia de encantos, mas também plena de perigos. Ou seja, o filme nada mais é do que a materialização das insatisfações humanas diante das mesmices do dia-a-dia. Esse é o sentimento de Boyer. Ele trocou a matéria crua e instintiva de suas produções (excelentes, diga-se de passagem) em Glasgow pelo paraíso prometido em Hollywood. Lá há dinheiro, fama, mulheres, Oscars... mas também há roteiros ruins, produtores e estúdios que interferem diretamente nos filmes, cobranças para o retorno financeiro dos orçamentos milionários. Assim com DiCaprio, Boyer saiu em busca de um mundo diferente.

Ao chegar na ilha, Richard muda aos poucos seu comportamento, até tornar-se uma pessoa diferente - embora apenas os outros notem a mudança, pois Richard insiste em dizer que continua sendo o mesmo. Boyer, em seu primeiro filme em Hollywood, estava irreconhecível - o chatíssimo Por uma vida menos ordinária, que consegue entediar tendo Ewan McGregor e Cameron Diaz no elenco. Desta vez, parece que ele quer convencer a todos que ainda é o mesmo: há cenas que respeitam o espírito de Trainspotting, como quando Richard se imagina em um video game na floresta. Mas são trechos esporádicos, e não a linha condutora do filme. A impressão que fica é que Boyer decididamente não mostrou ser o mesmo desde que passou a trabalhar nos EUA.

O final do "A Praia", só indo no cinema para ver. Os próximos capítulos da carreira de Boyer, esses ainda estão para serem produzidos.

E para quem tem a curiosidade de saber se "A Praia" é mesmo uma mistura de Apocalypse Now com Lagoa Azul, vai a dica: é, e não é. Richard passa pelo mesmo processo de "enlouquecimento" do Martin Sheen em Apocalypse Now. O contato com situações extremas faz com que os dois personagem abandonem aos poucos sua civilidade e passem a agir como produtos do ambiente em que vivem, instinto puro. Mas a semelhança fica por aí. Como diria meu avô, A Praia precisa comer muito arroz com feijão para chegar aos pés do Apocalypse, de Coppola. Quanto à Lagoa Azul, a semelhança está na praia. Ponto.

 

A PRAIA (The Beach, EUA, 2000). De Danny Boyle. Com Leonardo DiCaprio, Tilda Swinton e Robert Carlyle. 118 min.