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Um plano nem tão simples assim
Suspense de Sam Raimi é thriller psicológico de primeira
Por Adriana Mori
O que você faria se encontrasse US$ 4,4 milhões de dólares? Esse é o mote
desencadeador da ação de Um Plano Simples (A Simple Plan, 1998),
dirigido por Sam Raimi, da série Evil Dead e Darkman. O roteiro de Scott B.
Smith, autor do livro em que se baseou, apresenta uma trama sofisticada e
bastante caprichada, partindo de uma premissa bastante simples, um trio de
amigos de uma cidadezinha do interior do Minnesota que se depara com uma sacola
cheia de dinheiro.
A seu modo, cada um dos três é um fiasco e esse
dinheiro viria bem a calhar. Morador de uma cidadezinha do interior de
Minnesota, Hank (Bill Paxton, correto) é o filho pródigo que deixa a cidade para
cursar a faculdade e depois volta, vivendo uma vida medíocre, trabalhando como
contador em uma loja de grãos. Casado com a bibliotecária Sarah (Bridget Fonda),
espera para o inverno o nascimento da primeira filha. Seu irmão Jacob (Billy Bob
Thornton, excepcional) é desempregado. Vive nos fundos de uma casa e tem por
única companheira a cadela Mary Beth. Seu grande sonho é comprar a fazenda onde
moraram seus pais. O terceiro, Lou (Brent Briscoe), é o melhor amigo de Jacob,
também é desempregado, porém arruaceiro e beberrão, casado com uma mulher
mandona e impositiva.
Na véspera do ano novo, o trio sai para colocar
flores no túmulo dos pais de Hank e Jacob. No caminho de volta, Mary Beth
persegue uma raposa que tinha roubado uma galinha em um sítio das redondezas,
enfiando-se no meio da floresta congelada. Os três vão atrás dela e sem querer,
trombam com o avião, onde encontram o piloto morto e US$ 4,4 milhões. Fazem um
trato, combinando que caso o dono do dinheiro não aparecesse até a primavera,
dividiriam em três partes. Hank volta para casa com a mala e conta a novidade
para a esposa. Ele busca nas atitudes de Sarah algo que lhe soasse como
aceitação, o que acontece tão logo ela se depara com o dinheiro, sucumbindo à
tentação, à possibilidade de um futuro melhor para eles e a filha. Porém, Sarah
sugere que Hank devolva US$ 500 mil para não despertar suspeitas de roubo caso o
avião seja encontrado. No dia seguinte, Hank e Jacob voltam ao local e devolvem
parte do dinheiro. Porém, os irmãos matam um fazendeiro local e simulam que foi
um acidente.
O poder de sugestão de Sarah sobre o marido desencadeia as
ações. Com sua personalidade dúbia, ela de início parece feliz com sua vida, mas
quando o dinheiro é envolvido, as mazelas da vida do casal são expostas e ela se
mostra uma mulher gananciosa. Aparentemente doce, ela vai se mostrando uma
mulher fria e manipuladora, que consegue fazer com que o marido aja de forma que
o dinheiro possa ficar com eles. Encontra habilmente, formas agir e justificar
os atos. Seguindo as sugestões de Sarah, Hank tenta manter o dinheiro sem
despertar supeitas e evitar riscos, porém, as tragédias causadas por essa
iniciativa se sucedem. O lado escuro de Hank floresce, deixando o clima pesado,
permeado pela ganância e rancor evidentes, justificados em nome da auto defesa.
Todas as aparências enganam; dinheiro não traz felicidade, beleza não significa
benevolência e a rotina da cidadezinha pacata é abalada por situações de
violência e brutalidade.
A locação escolhida, em meio a muita neve,
funciona bem. Parece que, por baixo da neve branca, límpida, se esconde um outro
plano real, degenerado, podre. O roteiro é excelentemente bem amarrado e o
elenco está perfeito, com destaque para Billy Bob Thornton, perfeito no papel de
Jacob. Indicado para o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, ele rouba a cena com
seu ar apalermado, porém mais profundo do que qualquer outro personagem. Jacob
pode não ser inteligente, mas é muito sagaz, com uma visão muito acurada das
pessoas ao seu redor. Depois de vários filmes água-com-açúcar, o fim do ingênuo
Jacob foi uma (boa) ducha de água fria. Porém o que choca não foi só o fim de
Jacob, mas o fim do filme. Quando as luzes do cinema se acenderam, me vi
surpresa com o que vi. Hollywood nos condiciona ao final "E eles foram felizes
para sempre". Nesse ponto, Um Plano Simples surpreende mais uma vez. O
que se vê, decididamente, não é um final feliz.
Clique aqui para ver a
crítica de Edilson Saçashima sobre este filme.