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Um personagem inusitado

Como um microfone penetra enriqueceu o debate sobre Um Plano Simples

Por Edilson Saçashima

Certa vez, um montador não compreendeu o por quê de um plano sem sentido algum à trama ser incluído no filme. Perplexo, ele foi pedir satisfação ao diretor, o genial Luchino Visconti. O cineasta respondeu de pronto. "Não se preocupe. Deixe que os críticos encontrem um sentido para o plano", teria afirmado para o espanto do montador. Sam Raimi está a anos-luz de ser um Visconti mas tem suas qualidades como provam a criativa série Noite Alucinante (Evil Dead) e a deliciosa aventura do herói Darkman. Com um currículo desses, como justificar um erro tão grosseiro como o que aparece em Um Plano Simples? Neste filme, Raimi conseguiu a proeza de revelar ao espectador o microfone (!) que capta o som ambiente em pelo menos 10 % (!!) das cenas. É verdade que o diretor amargava um inferno astral desde que trabalhou com Sharon Stone em Rápida e Mortal mas será que o tempo fez com que ele "perdesse a mão"?

Talvez não. Talvez esse "erro" seja proposital e, na verdade, o microfone seja mais um personagem neste drama. A história de Um Plano Simples é das mais elementares. Os irmãos Hank (Bill Paxton) e Jacob (Billy Bob Thornton) descobrem um pequeno avião caído no meio da floresta. Dentro dele, encontram uma mala com quatro milhões de dólares. Como ficar com essa grana sem dar bandeira aos verdadeiros donos, que podem ser traficantes de drogas ou seqüestradores, e aos moradores locais? É aí que surge um plano simples e os elementos que impossibilitam a sua execução.

O suspense é mantido sem cenas mirabolantes ou efeitos especiais. A tensão se fixa nos diálogos precisos que revelam um minucioso perfil psicológico dos personagens. Ganância, remorso e desespero são expostos através das palavras e pelas interpretações primorosas do elenco principal. É a palavra, absolutamente essencial ao filme, que irá detonar o suspense. Quando os irmãos voltam com a caminhonete abarrotada de dólares, eles cruzam com um policial. Hank tenta despistá-lo mas Jacob dá com a língua nos dentes e faz menção sobre o avião, o que pode criar suspeitas. Assim o filme se desenrola, com os personagens ora comprometidos com as palavras (pactos de silêncio, compromissos), ora se embaraçando com elas (atos falhos, falas impensadas que acabam por revelar detalhes, etc.). Além disso, a fala sempre está denunciando, ora como forma de expressar a característica do personagem, ora como forma de acusar o outro, seja através de diálogos, telefonemas ou gravações.

A sensação de insegurança vai aumentando a ponto de criar um clima de asfixia entre os personagens. É nesse ponto que entra o tal do microfone. Os personagens desconfiam de tudo e de todos, como se as paredes tivessem ouvidos e todos soubessem do crime. E isso é verdade, parece afirmar Raimi. A presença do microfone na cena também não estaria, consequentemente, denunciando a presença do público do cinema? Assim, o microfone revelaria uma tentativa do diretor de mostrar aos seus personagens que não há como guardar o segredo, de alguma forma ele será descoberto. Sob essa ótica, Um Plano Simples seria um exercício de meta-cinema. Será isso mesmo?

O filme mostra a impossibilidade de se guardar um segredo. Mesmo se firmando um pacto de silêncio, todas as pessoas mais próximas dos principais envolvidos têm conhecimento sobre o dinheiro. Ironicamente, todas elas morrem, de uma forma ou de outra, em conseqüência desse segredo. Assim, nós, espectadores, também não estaríamos correndo risco? Afinal, o microfone sempre aparece nas cenas em que Hank é um dos interlocutores. Esse personagem é o mais obstinado em manter vivo as esperanças de ficar com o dinheiro, por isso, não se furta a elaborar planos a cada nova morte. Assim, Raimi revela a presença do espectador ao personagem que menos impõe limites para alcançar a fortuna. Irônico, não?

A princípio, a análise de Um Plano Simples revela um filme que ultrapassa as convenções da linguagem cinematográfica. Nada mal se levarmos em conta que vivemos em uma época em que a câmera sacolejante do Dogma 95 põe o cinema a nu. Por outro lado, não se deve esquecer que o filme de Sam Raimi foi produzido por um grande estúdio de Hollywood, o que pressupõe seguir a risca a cartilha do cinemão clássico, em que nada pode estar fora do lugar. Essas observações só colocam mais lenha na fogueira. Afinal, o microfone foi um erro ou está lá de propósito? A resposta só pode ser dada pelo próprio Sam Raimi. Mas talvez ele deixe aos críticos a incumbência de dar um sentido ao microfone. Por que não?

 

Cotação: ***



Clique aqui para ver a crítica de Adriana Mori sobre este filme.