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E Zeus criou Louise Brooks (para a desgraça dos homens)

Câmera sutil de Pabst faz leitura da mitologia grega em Caixa de Pandora

Por Edilson Saçashima

Algumas tendências se consolidaram ao longo desse século de cinema. Uma delas é a consagração das divas loiras. Para muitos espectadores, ver Marlene Dietrich, Greta Garbo, Marilyn Monroe ou Rita Hayworth era passar por uma experiência extática. Mas nem sempre foi assim. Houve uma época em que a vênus pratinada ainda não dominava as telas em decorrência, talvez, da acirrada concorrência de beldades morenas como Louise Brooks.

Na década de 20, quando o cinema alemão encontrava-se no seu apogeu, Brooks protagonizou algumas das principais obras cinematográficas da história como A Caixa de Pandora. Neste filme, ela interpreta Lulu, uma jovem radiante que é inconscientemente responsável pela ruína de seus amantes e é vítima da exploração daqueles que se aproveitam de sua beleza e ingenuidade. Brooks empresta à personagem Lulu uma alta carga de erotismo. Não o erotismo fabricado como a conhecemos hoje, em que a insinuação das formas do corpo e as caras e bocas são responsáveis pela conotação sexual da obra. Em A Caixa de Pandora, Brooks constrói uma jovem sedutora pela química resultante de um forte sex-appeal aliado a um ar de garota infantil, quase inocente. Essa mistura mostra-se explosiva aos homens, mesmo para aqueles que viveram os loucos anos vinte. Esse vigor permanece até hoje, após o liberalismo sexual da década de 60 e a castração da AIDS nos 80 e 90.

A mistura de viço, inocência juvenil e beleza assombrosa será responsável pela derrocada de Lulu. Sua trajetória é marcada pela presença de Schigolch (Carl Goetz), um velho imoral que finge ser seu pai para explorá-la como prostituta e que tenta colocá-la no espetáculo de trapezismo do acrobata Rodrigo Quast (Carl Raschif). Entre os clientes de Lulu está Ludwig Schoen (Fritz Kortner), influente dono de jornal que está noivo da filha do Ministro do Interior. Preocupado com sua imagem, ele decide encerrar o caso com Lulu, mas só aparentemente. Schoen propõe ao seu filho, o dramaturgo Alwa (Franz Lederer), contratar a jovem para o seu espetáculo. Nos bastidores do show, Lulu e Schoen se encontram e reiniciam o caso, no entanto, são flagrados por Alwa, que nutre uma paixão secreta pela jovem, e pela noiva do dono do jornal. A ruína de Schoen só não será maior se ele se casar com Lulu. É o que acontece. Mas, em um acesso de ciúme, ele tenta provocar o suicídio de Lulu que, apavorada, atira em Schoen e o mata.

No tribunal, ela é condenada a cinco anos de prisão, mas devido a um tumulto provocado por Schigolch, ela consegue fugir. Foge para o lar dos Schoen, onde irá encontrar Alwa. Apaixonado, ele decide protegê-la e fogem do país. No entanto, durante a fuga, um desconhecido reconhece a foragida e começa a chantagear Alwa exigindo dinheiro em troca do seu silêncio. Neste meio tempo, Schigolch e Rodrigo Quast a reencontram e juntos seguem viagem. Desesperado, Alwa tenta conseguir dinheiro trapaceando no pôquer mas é desmascarado e expulso do navio. Ao mesmo tempo, Quast exige que Lulu arranje dinheiro para o show de trapezismo, enquanto que o desconhecido vende a jovem para um egípcio. Lulu foge, junto com Alwa e Schigolch, para Londres. Lá, os três se vêem em extrema miséria e Lulu decide se prostituir. Consegue seu primeiro cliente mas, afeiçoado por ele, não tem coragem de cobrar pelo seu serviço. Mal sabia que estava caindo nas garras de Jack, o estripador.

As feministas de plantão poderiam encontrar vários argumentos para combater o filme de Pabst. A mulher, na figura de Lulu, é representada ora como agente da desagregação moral e social dos homens — a ruína de Schoen e Alwa —, ora como objeto com valor de troca — como revela a atitude de Schigolch, Rodrigo Quast e do chantagista. O próprio título do filme faz referência a um mito que, visto superficialmente pelos olhos contemporâneos e viciados pela postura do politicamente correto, nada contribui à imagem da mulher. Segundo a mitologia grega, Zeus criou a primeira mulher, um ser sedutor, um mal a qual não se possa fugir. Essa figura chamada Pandora é, na realidade, uma armadilha que é enviada aos homens. Ela é responsável pela guarda de um jarro e é aconselhada pelos deuses para jamais abri-la. No entanto, ela não segue o conselho e, ao levantar a tampa do jarro, liberta todos os males que irão se proliferar pelo mundo. Esse mito será retomado no julgamento de Lulu e servirá de atenuante na imputação da pena. Segundo o juiz, Lulu, assim como Pandora, não tinha consciência das conseqüências de seus atos.

No entanto, será a consciência que irá selar definitivamente a decadência de Lulu. Buscar a prostituição será a primeira atitude tomada sob sua própria vontade. No entanto, seu primeiro cliente será Jack, o estripador, que, assim como o juiz, irá titubear diante da formosura de Lulu, mas irá cumprir sua sina de assassino.

Se a análise do enredo politicamente incorreto, sempre sob a ótica contemporânea, parece pouco favorável à Pabst, ao menos de algo o cineasta jamais poderá ser acusado: falta de sutileza. O diretor alemão trata com leveza rara um tema áspero como o deste filme. O erotismo acentuado pela personagem de Louise Brooks jamais escorrega à vulgaridade. Ao contrário. Ele está presente no rosto inocente da atriz, nos gestos suaves e na interpretação carregada de ambigüidade de Brooks. O estado de espírito dos personagens nunca são revelados com ações bruscas ou legendas. Pabst se utiliza de elementos sutis para transparecer idéias mais complexas. Por exemplo, vemos apenas a fumaça da pistola e compreendemos que Schoen fora atingido. Em outra cena, a morte da vítima será representada por uma mão que escorrega suavemente do ombro do assassino. São esses elementos que garantem a vitalidade de uma obra de rara beleza. Afinal, numa época em que se proliferam filmes em que a principal atração são vísceras expostas e corpos desnudos, um pouco de sutileza e erotismo implícito e latente não faz mal a ninguém.

 

A Caixa de Pandora (Die Büchse der Pandora, 1928, Alemanha). 130 min. De G. W. Pabst. Com Louise Brooks, Fritz Kortner, Franz Lederer, Gustav Diessl, Alice Roberts, Krafft-Rasching, Carl Goetz.