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De Palma tem a resposta

Missão: Marte mistura aventura (divertida) e falação metafísica (chatíssima)

Por Edilson Saçashima

 

Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Essas questões filosóficas que pareciam nunca ter uma resposta finalmente ganharam uma explicação. O autor da façanha é o diretor Brian De Palma. Parece pretensioso? E é. O cineasta reduziu as mais complexas questões que povoam o imaginário do ser humano em uma aventurazinha chinfrim chamada Missão: Marte.

Vamos à história. A primeira tripulação humana para Marte é praticamente dizimada por uma estranha coisa (ser vivo, evento da natureza marciana?). Obviamente, resta um para contar a tragédia para a base. É o motivo para os astronautas se agitarem e armarem uma operação resgate. E lá vão Tim Robbins e companhia para uma aventura no planeta vermelho.

Claro que o rococó De Palma não se contentou só com esse quiproquó. Pena que não conseguiu escapar dos clichês do gênero. Estão todos no filme: o novato engraçadinho, o perturbado que ninguém bota fé mas que ganha a sua grande chance nessa viagem, o sujeito que é capaz de até sacrificar sua própria vida pelo grupo.

Além disso, é bom não esquecer das referências a outros filmes, marca registrada do diretor de Olhos de Serpente e Os Intocáveis. Em Um Tiro na Noite (Blow Out) tínhamos homenagens a Michelangelo Antonioni. A cena da escadaria em Os Intocáveis (The Untouchables) é quase uma cópia (magistral, diga-se) de O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein. De Hitchcock é bom nem falar, as referências são intermináveis. Em Missão: Marte as homenagens também não foram esquecidas. É possível notar referências a 2001, Contatos Imediatos de Terceiro Grau, Apollo 13 e até Duna.

Resultado desse caldeirão: um filme que tem cenas sublimes e outras absolutamente patéticas. É bom notar que De Palma não perdeu totalmente a mão como na cena em que a primeira missão humana é atacada pela coisa ou no momento em que a câmera passeia pela nave registrando a rotina da tripulação. Mas quando ouvimos diálogos dignos de "A Praça é Nossa", começamos a duvidar da sanidade do cineasta. Exagero? Então como explicar um diálogo do tipo:

"Veja, são três covas. Quer dizer que há ainda um sobrevivente", diz um astronauta. "Não, isso só significa que não havia ninguém para enterrar o outro", diz outro sábio.

Argh!

E não é só. Pior é o ufanismo. Quando a tripulação de salvamento chega a base em Marte, encontra tudo caindo aos pedaços. E – incrível – a bandeira dos EUA está no chão quase enterrada! É claro que os astronautas irão pegá-la como se fosse uma frágil criança e erguê-la para que a grande flâmula tremule aos ventos marcianos. Tudo isso com pose do elenco, todos de peito estufado e olhando para o horizonte vermelho. Argh 2!

Isso é De Palma. Enquanto o diretor se preocupa apenas com as cenas de aventura e suspense, o filme flui com leveza. Mas quando vem o blablablá metafísico, é a hora de dar um amasso na(o) namorada(o) ou comprar pipoca. Os últimos vinte minutos, quando o mistério se revela, são os mais penosos para o espectador. É difícil não se decepcionar com o desfecho, depois que o cineasta nos prende na poltrona com alta carga de mistério e pitadas de adrenalina. Pior é quando descobrimos que somos... Bom, deixa pra lá.

Depois de assistir a um filme meia boca como Missão: Marte e que pretende explicar o que é o ser humano, fica a dúvida: será que Brian De Palma acha que os espectadores de cinema descendem de hipopótamos com cérebro de minhoca?

 

MISSÃO: MARTE (Mission to Mars, EUA, 2000). De Brian De Palma. Com Gary Sinise, Tim Robbins, Don Cheadle, Kim Delaney, Elise Neal, Connie Nielsen, Jerry O´Connell. 112 min.