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Mera e eficiente diversão
Mera coincidência, de Barry Levinson, entretém e faz pensar
Por Fabio Bense
Há alguns filmes que são, unicamente, produtos de uma idéia e do respectivo desenvolvimento desta idéia. Se o ponto de partida for suficientemente bom e se ele for desenvolvido com criatividade e imaginação, a película consegue chegar ao final agradando o espectador. Se não, passa a mesma sensação da piada engraçada que, de tão repetida, perde a graça.
Exemplos desta maneira de se elaborar um longa-metragem não faltam: Não tenho troco, Feitiço do Tempo, Proposta Indecente, O Jovem Frankenstein, etc. E, também, Mera Coincidência. Em alguns destes filmes citados, a idéia pelo qual se apoiam é tão consistente a ponto de sustentar um filme inteiro. É o caso do filme de Levinson que vai, inclusive, além: a idéia além de ótima é muito oportuna diante de acontecimentos vividos há pouco tempo nos EUA.
A estória de Mera Coincidência é a de um candidato a reeleição para a presidência dos EUA. Ele se vê envolvido num escândalo de grandes proporções há 15 dias das eleições: uma acusação de abuso sexual por parte de uma adolescente que visitara a Casa Branca junto com outro estudantes. Conscientes da gravidade da situação (o fato já é do conhecimento da imprensa) os assessores do presidente contratam os serviços de um conhecido "resolvedor de problemas" (um tipo de profissional semelhante ao que Harvey Keitel interpretava em Pulp Fiction - Tempo de Violência), vivido por Robert de Niro numa atuação surpreendentemente discreta. Este imagina uma solução para os problemas do candidato a reeleição: criar uma notícia extraordinária envolvendo o presidente, monopolizando a atenção da imprensa a fim de encobrir e levar o escândalo do abuso sexual ao esquecimento durante os 15 dias que faltam para a eleição.
De Niro sugere que se invente uma notícia de interesse crucial para todos os americanos, no caso, uma ameaça emergente ao american way of life. Assim, espalha-se pela imprensa, através da assessoria do presidente, que terroristas presentes na fronteira dos EUA com o Canadá e provenientes de um país distante que vive conflitos bélicos internos (escolheu-se a Albânia, pelo pouco conhecimento que os norte-americanos detém deste país), ameaçam soltar uma bomba nuclear em território americano. Para De Niro, tal notícia iria alarmar tanto a população que esta esqueceria os boatos envolvendo o presidente e a adolescente.
Para levar tal mirabolante idéia ao plano concreto e real, De Niro pede auxílio a um produtor de cinema (Dustin Hoffman, em atuação sensacional), prometendo, através do presidente, um prêmio em dinheiro ou um cargo honroso de embaixador dos EUA em algum país. Hoffman topa e o plano é posto, então, em prática.
O desenrolar deste enredo culmina em uma comédia genial, que apresenta um dos personagens mais interessantes e divertidos do cinema nos últimos tempos: o produtor vivido por Hoffman. A cada problema durante a "produção" ele imagina prontamente uma solução hilária. Há tiradas cruelmente irônicas, sarcásticas, na trama, como a cena em que a "albanesa" foge dos bombardeios em sua terra natal, carregando um gatinho em seu colo (detalhe: tudo foi criador pela mente de Hoffman para comover a opinião pública americana e habilmente filmado num estúdio de televisão).
Além de divertir, o filme dirigido por Levinson (de O Enigma da Pirâmide e Rain Man, um diretor um tanto burocrático mas que não costuma estragar roteiro "espertos", como o de Mera Coincidência), propõe uma crítica corrosiva o processo de manipulação da opinião pública pelas imagens exibidas pela televisão. Da maneira que os fatos são expostos em Mera Coincidência é quase impossível não pensar na possibilidade de se ter bancado o otário defronte a um noticiário de televisão (sobre a manipulação pela imagem na TV vem logo a minha mente um exemplo: o já famoso debate entre Collor e Lula no final da campanha presidencial de 1989 e a edição "marota" que a Rede Globo exibiu no Jornal Nacional do dia seguinte).
Também há uma crítica muito apropriada a hipocrisia com que se costuma explicar os motivos que fazem certa nações se envolverem em conflitos bélicos. Embora em Mera Coincidência não há um missilzinho sequer lançado na Albânia (nem poderia, pois aí seria muita insanidade para um filme só), o longa-metragem pode fazer o espectador pensar que os motivos mais aparentemente benevolentes para a entrada de uma nação num conflito bélico (como o chavão, precisamos defender o bem estar da humanidade) podem estar escondendo interesses pessoais absolutamente egocêntricos, que impressionam pelo descaso com a vida humana.
Mas, como já se disse, acima de tudo Mera Coincidência é um ótimo entretenimento. Todos saem lucrando: tanto o espectador quanto, muito provavelmente, os produtores. Explica-se: há uma tendência dos filmes que se desenvolvem a partir de uma única idéia serem baratos, gerando uma lucrativa relação custo-benefício. Estes filmes também não costumam apresentar grandes ambições: o objetivo é manter a atenção do espectador, continuar o surpreendendo e não ser considerado, por exemplo, "o melhor filme da década" ou "a obra que revolucionou o cinema".
Filmes como Mera Coincidência não objetivam grandes prêmios, abocanhar muitos Oscars. Apenas tentam divertir o espectador sem insultar sua inteligência e, se possível, como no caso de Mera Coincidência, estimulá-la. O filme de Levinson consegue tudo isso com tamanho êxito, que, dentre dos filmes já citados que se apoiam numa única idéia, possui mesmo um destaque todo especial.
Divertido, eficiente, imaginativo, por vezes brilhante (como na seqüência do resgate do "autêntico" herói americano, vivido por um engraçado Woody Harrelson), Mera Coincidência tem um final de cruel ironia. O produtor vivido por Hoffman acaba não se contentando apenas com o prêmio em dinheiro ou com o novo cargo que irá ocupar. Ele quer os créditos da "produção" (a guerra de mentirinha). E isto não é possível, pois, do contrário, todo o "teatrinho" seria revelado. Daí... Bem, não contarei o final do filme. Não seria justo para um longa metragem que deseja apenas divertir o espectador e alcança com muita dignidade o seu objetivo. Talvez este seja o único ponto vulnerável de Mera Coincidência – ser estragado por um desmancha prazeres que conte por inteiro a sua bem bolada estória.
Cotação: ****