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Meninas não desapontam

Atuações soberbas de Hillary Swank e Chloe Sevigny são os pontos positivos de Meninos não Choram

Por Edilson Saçashima

 

Pouco a pouco o cinema começa a se libertar dos preconceitos e a deixar de retratar os homossexuais como simples personagens cômicos ou desajustados mentais. Não entanto, isso não significa que filmes que mostrem gays ou lésbicas em toda a complexidade típica do ser humano sejam obras-primas. A mais recente prova disso é Meninos não Choram.

O filme conta a história de Teena Brandon (no registro de nascimento) ou Brandon Teena (como é conhecido em sua vida social), interpretado com maestria por Hillary Swank. Fisicamente mulher, Brandon se veste e se comporta como homem. É assim que consegue se infiltrar no mundinho macho e conquistar as garotas em Falls City, Nebraska, uma provinciana cidade dos EUA. Até o dia em que conhece Lana (Chloe Sevigny), por quem se apaixona. A partir daí, o drama começa a se desenvolver de forma a, sutilmente, fechar o cerco sobre a real identidade de Brandon até desencadear reações de violência com direito a estupro e assassinatos.

O segredo está na primeira cena. Não há qualquer tentativa da diretora Kimberly Pierce de esconder a identidade feminina de Brandon. No início do filme, a primeira imagem da personagem é dela se preparando, transformando-se em homem, para sair e conquistar garotas. A preparação inclui o corte de cabelo e enchimentos para simular o volume do pênis. Assim, o espectador já está ciente de que Brandon Teena é Teena Brandon se fazendo de homem. Com isso, a diretora poderá controlar o suspense do filme. Por exemplo, a personagem de Swank em alguns momentos se encontra em uma situação em que sua real identidade poderá ser descoberta, como no encontro amoroso (como pode haver penetração numa relação entre duas mulheres sem que uma desconfie que a outra não é homem?). Outra decorrência dessa opção da diretora é a criação de ambigüidade em alguns diálogos. Em certa cena, John Lotter (Peter Sarsgaard), o amante barra pesada de Lana, comenta que seus problemas estão relacionados a mulheres e Brandon responde que também os seus tem a ver com o sexo feminino. Sabendo-se de antemão o sexo de Brandon, é possível sugerir que o seu problema é de cunho interior, psicológico, e não exterior, vinculado a relacionamentos, como quis colocar John.

Meninos não Choram é baseado em fatos reais que ocorreram em 1993, por isso, seu interesse principal não é desenvolver somente um filme de suspense ("quando que Brandon será desmascarado?"), afinal, todos já conhecem ou imaginam o final. No entanto, o enfoque recai no drama da jovem protagonista, na sua condição de rejeitada social. Nesse ponto o filme é titubeante.

As personagens centrais do filme, Brandon e Lana, são representados de forma espantosa pelas duas atrizes. Elas são caracterizadas de maneira a fugir dos estereótipos. No entanto, parecem não possuir grande complexidade psicológica. Brandon parece uma personagem convicta de suas preferências sexuais e não transparece a ambigüidade entre ser uma mulher e desejar ser um homem, típica nestes casos. Lana tampouco parece uma personagem conflituosa. Apesar de se apaixonar por uma figura masculina, aparenta aceitar a verdadeira condição de Brandon sem maiores crises, ao contrário do que se imaginaria numa situação como essa.

No final, o saldo acaba sendo semelhante ao de outros filmes com temática gay. Encontramos de novo os tradicionais tipos de filmes do gênero: a personagem principal (aquela que se reconhece homossexual) tentando ser aceito como ela é; a garota inicialmente heterossexual mas que é convertida pelo amor da protagonista; os vilões representando a sociedade (neste caso, a mãe de Lana) e o preconceito (os malvados John e Tom Nissen, interpretado por Brendan Sexton III).

Dessa forma, o fato real torna-se similar à fantasia, ou seja, a vida imita a arte e a arte imita a vida. É claro, e que se destaque esse ponto, isso não tira a grandeza da mensagem do filme (o fim dos preconceitos, a necessidade de aceitar as pessoas como elas são). No entanto, um filme não é só feito de mensagens nobres. É importante também a forma como elas serão apresentadas. Nesse ponto, faltaram dedos mais sutis e habilidosos. Por exemplo, apesar do filme apresentar com crueza o drama de Brandon, nota-se uma tendência a transformá-lo em mártir, uma alma boa (sabe lidar com crianças, é sensível, meigo, atencioso) que irá sofrer com a maldade humana devido à sua condição. E mais. O fato de Brandon ser vítima de John e Tom, dois bandidos com claros sinais de problemas psiquiátricos (um se auto-mutilava para se manter ligado à realidade e outro que não consegue conter nenhum impulso) enfraquece a mensagem contra o preconceito, afinal, pode-se interpretar que Brandon é vítima de criminosos perigosos e não do preconceito da sociedade.

Enfim, o filme não tem o peso que poderia alcançar. Talvez por estar engessado à realidade, talvez pela falta de malícia da diretora estreante, talvez pelos poucos recursos de produção. Mas jamais devido ao trabalho das atrizes. A transformação de Hillary Swank em Brandon é impressionante e Chloe Sevigny injeta veracidade e sobriedade a Lana. Tudo isso, no entanto, não é suficiente para tirar a película do lugar comum. Infelizmente.

 

MENINOS NÃO CHORAM (Boys donīt cry, EUA, 1999). De Kimberly Pierce. Com Hillary Swank, Chloe Sevigny, Peter Sarsgaard, Brendan Sexton III. 114 min.