Principal | Top 10 | Você Sabia...? | Filmes | Críticas | A bomba do mês | Editorial | Entrevista | Fale Conosco
Quero ser alguém
Comédia surreal,
Quero ser John Malkovich permite reflexão sobre o vazio da existênciaPor Edilson Saçashima
Troca de identidade sempre foi um tema recorrente no cinema. Os exemplos são numerosos. Pode-se citar toda a filmografia de Alfred Hitchcock, as comédias baseadas no travestismo (Tootsie, Victor ou Vitória, Quanto Mais Quente Melhor), as aventuras policiais (A Outra Face) ou filmes mais conceituais (Persona). Então, qual a novidade de Quero Ser John Malkovich?
O primeiro ponto que se destaca do filme é o tom surreal da trama. Craig Schwartz (John Cuzak) é um marionetista que consegue um emprego de arquivista no sétimo e meio andar de um prédio. Lá, ele encontra uma pequena porta que irá dar em um corredor barrento e que desemboca na mente de John Malkovich (interpretado pelo próprio ator). O achado se torna um lucrativo negócio para ele e sua colega de trabalho, Maxine (Catherine Keener), e uma fonte de prazer para a esposa de Craig, Lotte (Cameron Diaz, feia de dar dó).
O enredo permite diversas possibilidades, uma mais absurda que a outra. Por exemplo, Lotte, após experimentar o corpo de Malkovich, descobre ser uma lésbica e se apaixona por Maxine. Malkovich se aventura pelo túnel e descobre que todos são... Malkovich (!!!!).
Essas situações inusitadas fazem com que o espectador se mantenha hipnotizado pela tela, além de provocarem risos pelo absurdo dos fatos.
Talvez seja essa a chave para se compreender o prazer em ver o filme. A película se desenrola livre de amarras, dando vazão há imaginação (alucinada, diga-se) do roteirista. Ele não teve nenhum compromisso com a lógica tal a conhecemos. Assim, nada é inverossímil, tudo é possível, o que torna surpreendente cada fato novo, cada seqüência, cada cena.
Mas há um tema subjacente em tudo isso. Indiretamente o filme trata da insatisfação das pessoas consigo mesmas e o desejo de serem outras. Craig Schwartz é um marionetista. Através dos bonecos, ele consegue realizar o seu desejo de ser um outro. Assim, pode-se interpretar a cena da apresentação na rua, quando Craig simula uma cena erótica com seus dois bonecos, como uma representação dos seus desejos reprimidos, afinal, seu relacionamento com a esposa é quase nula. Lotte, por sua vez, tem relação mais amistosa com os animais que com o próprio marido. Maxine não teve melhor sorte. Ela só consegue se relacionar com alguém desde que essa pessoa esteja no corpo de John Malkovich.
Os personagens estão em desajuste com os outros e consigo próprios. O relacionamento entre eles nunca ocorre de forma direta. Ele sempre é intermediado por uma máscara (o corpo de Malkovich). É ela que permitirá o real encontro entre os protagonistas.
E o que representa esse corpo? Reconhecimento e status são as primeiras palavras que vêm à mente. Ser John Malkovich significa ser alguém, ter seus quinze minutos de fama. Mais que isso. Ser um ator significa emprestar o corpo para dar vida a um personagem, tornar a existência de um ser possível.
Dar vida? Ter uma identidade? Reconhecimento? Será que essa comédia aparentemente despretensiosa é a mais nova reflexão sobre a essência da existência humana, um estudo sobre o que é ser humano? Pode ser que sim. Mas se não for, pelo menos é diversão garantida por quase duas horas.
QUERO SER JOHN MALKOVICH (Being John Malkovich, EUA, 1999). De Spike Jonze. Com John Cusack, Cameron Diaz, Catherine Keener, John Malkovich. 112 min. ![]()