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Drogas, sexo e rock n' "bowl"
São essas coisas e mais um enigmático seqüestro que fazem de O grande Lebowski um filme excepcional
Por Igor Ribeiro
O tiro certeiro de Quentin Tarantino com Cães de Aluguel (1992), iniciou a trajetória da cinegrafia cult dos anos 90 com um filme dos mais respeitáveis. Ainda que existam as divergências sobre qual é o marco inicial do thriller contemporâneo (os mais alternativos podem lembrar Europa de Lars von Trier, 1991), não receio em dizer que a década está vendo seu fim com um exemplar do gênero melhor ainda. O grande Lebowski (The big Lebowski, de Joel Coen. USA, 1998, 117 min.) fecha a temporada dos thrillers "moderninhos" de maneira sensacional. Os irmãos Coen, já admirados pelos ótimos Arizona nunca mais (1987) e Fargo (1996), presenteiam-nos essa grande obra, dotada de um bom humor extraordinário - peculiar pelo escrache bem feito e pela estereotipação apreciativa - e, de lambuja, discutem de uma maneira explícita (e pouco moralista) a ganância humana.
Os irmãos Coen usam e abusam de sua criatividade descritiva e, mais uma vez, constroem riquíssimas personagens para O grande Lebowski. Já são famosos por transformarem as mais diferentes atipicidades e banalidades do arsenal figurativo social em profundas fontes de análise psicológica, ao mesmo tempo em que as enche de um alto teor caricato. Esta fórmula mágica funciona mais uma vez. The Dude (Jeff Bridges, que depois de ter até dado umas bicotas na Barbra Streissend, volta no seu melhor papel), por exemplo, não faz nenhuma questão de esconder sua tranqüilidade em relação à turbulenta vida cotidiana. No entanto, por mais que The Dude seja um desempregado, drogado e fanático por boliche, sua honra e o mito de seu nome não podem ser manchados. Quem dirá, então, seu tapete - manchado pela urinária provocação de dois leões de chácara que procuravam por sua mulher. Só que The Dude é solteiro, e agora, um solteiro com o tapete manchado. É este o engano que dá a deixa para a grande história dos Coen.
The Dude quer uma indenização e, supondo terem lhe estragado a noite e o tapete por uma confusão de nomes, vai a procura do grande Lebowski - um homem aparentemente milionário e bem sucedido. Ele é o único homônimo de The Dude na cidade. A indenização que The Dude busca - e lembremos que, apesar do tapete ela é muito mais moral que material - parece ao outro Lebowski uma verdadeira ofensa. Alegando não ter responsabilidade sobre a vida da mulher, quase chuta The Dude de sua casa, que não consegue outro tapete oficialmente mas, aproveitando-se da ingenuidade do assessor do grande Lebowski, rouba um da mansão. Poucos dias depois, Bunny Lebowski, a jovem e ninfomaníaca esposa do milionário, desaparece. Em cima do sumiço de Bunny especula-se um seqüestro, que gera uma série de acontecimentos hilariantes.
Como se já não fossem suficientes o genial roteiro e os personagens que nele atuam (pois como disse Gregory Hicann na sua coluna do San Francisco Examiner, o roteiro por si só já sustentaria o filme), a velha turma preferida dos Coen dão a carne à ficção: John Goodman (de Arizona nunca mais e Barton Fink), Steve Buscemi (de Barton Fink e Fargo) e John Turturro (de Barton Fink) mostram o caminho das pedras a Jeff Bridges de maneira brilhante. Goodman encorpora Walter, um obcecado veterano do Vietnã, companheiro de boliche e amigo de The Dude. Walter faz a antítese ao tipo desleixado de The Dude, acompanhando-o e opinando nas peripécias relacionadas ao seqüestro. Donny (Buscemi) faz um papel secundário, mas extremamente engraçado, colocando-se entre Walter e The Dude como o amigo alienado, cuja maior e única preocupação é o boliche. Os três (Donny, The Dude e Walter), paralelamente à trama do sumiço de Bunny, treinam compulsiva e fanaticamente para um campeonato de boliche, e irritam-se com os esnobes desafios de Jesus - neste caso, uma personagem latino-bolicheiro de Turturro, e não o filho do Todo Poderoso (e mesmo que o fosse, dentro desse filme, seria totalmente compreensível).
Cheio de tipos estranhos, daquele jeito que só mesmo a Califórnia pode oferecer, o filme se passa no começo da década. Desse modo, remonta a cena da época detalhadamente, mostrando o quão cômico eram algumas daquelas novas realidades, como a figura de Saddam Husseim e os primeiros celulares - enormes e incômodos. Outro destaque são as cenas de The Dude "bem louco"... Você já se viu do ponto de vista de uma bola de boliche? Se nunca imaginou algo parecido, esta é somente mais uma das novas percepções as quais será submetido em O grande Lebowski.