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Pouco tempo, muitas escolhas
Muito mais que cafeína e desespero, O Jornal mostra que redações são nada mais que infindáveis minutos abarrotados de opções
Por Igor Ribeiro
Caos. A palavra mais facilmente ligada ao mundo do jornalismo certamente é esta. Quando se tenta visualizar a redação de um jornal, as imagens que se obtem são de desordem, estresse, café, gritaria, arrogância, entre outros fatores que trazem algumas gástricas crateras aos estômagos dos desafortunados profissionais dessa área. Mas isso condiz com a realidade, ou é nada mais que um grande engodo? Mistificar o jornalismo pode ser um exercício natural da mente humana, assim como o é com espionagem e fábricas de doces.
Traduzir as aflições do dia-a-dia de um jornal sem cair no sinistro mundo da inverosimilhança é uma difícil tarefa, conquistada brilhantemente pelo diretor Ron Howard, com seu filme O Jornal (The Paper, 1994, EUA, 112 min). Acima do estresse, das brigas, dos egos, e até mesmo da ética, o jornalismo é retratado no filme pelo seu estigma mais coerente e injusto: o tempo. É ele que determina o ritmo de cada um dos personagens que trabalha no tablóide The Sun. É o principal responsável para que as situações mais díspares aconteçam tão próximas umas das outras - de início, uma quimera, que se desfaz pelas casualidades às quais a vida da redação está submetida.
É também um filme sobre escolhas. Nota-se que os personagens do filme tem sempre algo para decidir, uma escolha a se fazer (muitas vezes sutil, mas de conclusão determinante). Com certeza, o mais perseguido por este drama é o editor de cidades, Henry Hackett, esplendidamente interpretado por Michael Keaton. A sua matéria, que inocentaria dois jovens suspeitos por assassinato, concorre com a atenção que deveria dar à mulher, grávida de vários meses (Marisa Tomei, também excepcional); concorre também com a suposta fidelidade ao editor de um jornalão que estaria comprando seu passe e; finalmente, concorre ainda com a decisão de publicar o que já se tinha para depois consertar. Tal decisão vem da editora administrativa, Alicia Clark - a maravilhosa Glenn Close, que junto a Robert Duvall e Randy Quaid fecham o sensacional time de atores do filme. Hackett faz suas escolhas e, com facilidade, percebe-se sua obstinação em conseguir informações que provem a inocência dos garotos, mesmo que para isso tenha que dar um calote na esposa em um jantar, roubar informações do editor do jornal com o qual negociava ou cair em tapas com a editora para que a gráfica pare de imprimir notícias falaciosas. A história desenrola-se por 24 horas, desde o momento no qual os jovens encontram o corpo que os responsabilizou pelo assassinato, até a publicação, no dia seguinte, da matéria de Hackett inocentando os dois. O fato do tempo ser tão curto para que apareçam tantas evidências da irrequieta rotina jornalística, traz aquele ar de impossibilidade.
Numa análise mais grosseira, tal incredibilidade leva ao duelo da sofisticação administrativa versus improvisação informativa - representados no filme por Glenn Close e Michael Keaton, respectivamente. Só que isso vai muito além da simplicidade da paridade certo/errado. Um jornal tem a necessidade natural de ter um bom desempenho comercial. Esta é a preocupação de Keaton/Hackett quando analisa e compara, todas as manhãs, a capa de seu jornal com outros da cidade, mesmo sendo ele um apaixonado pela inspirativa arte da reportagem. Ao mesmo tempo que um jornal deve ter um sucesso administrativo, também é seu dever o compromisso com a verdade a qualquer custo. Isto é relevado por Close/Clark no último segundo, quando volta atrás e concorda em parar a rotativa, mesmo desconfiada de um risco comercial. Assim, consegue-se o bom equilíbrio entre a razão e paixão, validando-se suposta analogia. Por isso a manchete do The Sun terá no dia seguinte um furo, que é na verdade a essência do esforço inspirativo do editor de cidades em conseguir sua matéria, mais a carga comercial necessária para bater os concorrentes, representada pela responsabilidade da editora administrativa em tocar o complexo empresarial que uma redação não deixa de ser. Isso evidencia a aparente coesão impossível entre ordem e caos, essencial para a vida de um bom jornal.