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Grande personagem em um filme menor

Joana D´Arc se restringe a algumas caretas na pelle de Milla Jovovich no filme de Luc Besson

Por Edilson Saçashima

 

Joana D’Arc é uma das mais complexas personagens que a história da humanidade já conheceu. Filha de camponeses, ela se dizia enviada por Deus para expulsar os ingleses das terras do reino da França. E quase conseguiu. Venceu algumas batalhas liderando o exército real mas, em 1430, foi presa e entregue aos ingleses. Acusada de heresia por um tribunal eclesiástico, foi condenada à morrer queimada em praça pública aos 19 anos de idade. Cinco séculos depois, em 1920, foi canonizada e considerada santa pela igreja. É essa história que o cineasta francês Luc Besson tenta contar na tela grande. O resultado é Joana D’Arc, filme de quase duas horas e meia que cumpre seu papel de diversão ligeira mas sem ser cativante.

Essa impressão se deve à postura conciliadora de Luc Besson. O cineasta evita arranhar a imagem de santa conquistada por Joana D’Arc ao longo dos séculos. No entanto, não se furta em levantar a hipótese de que ela, na realidade, poderia ser uma histérica fervorosamente religiosa. Assim, o espectador fica sem saber se as visões de Joana eram meros delírios — como quer crer a consciência da personagem, personificada por Dustin Hoffman em uma atuação soberba — ou eram realmente mensagens enviadas por Deus.

A essa postura "em cima do muro" junte-se a opção do diretor em relatar os feitos de Joana D’Arc em detrimento de explorar a sua complexidade psicológica, talvez a principal marca da personagem. São as cenas das batalhas travadas pela heroína que predominam no filme. A prisão e o julgamento da mártir, explorados por outros cineastas, parecem ganhar contornos de mero epílogo nas mãos de Besson. O ritmo ligeiro e a aparente despreocupação com o martírio de Joana D’Arc reforçam essa impressão. É como se o cineasta já tivesse cumprido o seu papel ao filmar os feitos dela mas, por mera convenção, tivesse de também acrescentar o final em que ela morre nas chamas.

A atriz principal também não colabora muito para o desenvolvimento do filme. No papel de Joana D’Arc, Milla Jovovich (O Quinto Elemento) se restringe em fazer algumas caretas para a câmera, muito pouco para uma personagem que já ganhou vida nas telas na pele de Ingrid Bergman e de Renée Falconetti.

Mas se o filme não chega aos pés de outras obras sobre o tema, como O Martírio de Joana D’Arc (1928), clássico de Carl Theodor Dreyer, ao menos resta um consolo: Luc Besson parece não ter perdido seu senso estético, afinal, os planos de Joana D’Arc apresentam a mesma beleza plástica presente em outras obras do cineasta como O Quinto Elemento, Subway e Nikita. Mesmo assim, é muito pouco pelo potencial que a história da personagem apresentava. Uma pena.

 

JOANA D´ARC (The Messenger: The Story of Joan of Arc, EUA/FRA, 1999). De Luc Besson. Com Milla Jovovich, John Malkovich, Faye Dunaway, Dustin Hoffman. 141 min.