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As imperfeições da vida

O Informante traz ao espectador um thriller sem os lugares-comuns do gênero

Por Rodrigo Flores

 

Para quem ainda não viu o filme, vale o alerta: O Informante não é o clássico que uns alegam, nem a maravilha que outros defendem. O Informante é sim um filme muito bem feito. Tem um roteiro que respeita a inteligência do espectador, atores de primeira linha e o ritmo que os fãs do "cinemão" de Hollywood tanto gostam. E, nos dias de hoje, isso não é pouco. Tanto que a película arrebatou sete indicações ao Oscar, com boa chances de levar uma ou outra estatueta para casa.

O Informante conta a história de um cientista, ex-executivo de uma grande indústria tabagística (Russell Crowe), que resolve denunciar a um produtor do programa "60 minutos" (Al Pacino) os segredos das grande corporações do ramo. Até aí, nada de novo. Eu não era nem nascido e minha mãe já falava dos riscos do cigarro. Além disso, pessoas que fazem denúncias bombásticas e passam a ser perseguidas e ameaçadas já renderam pelo menos duas dúzias de filmes – uns bons, outros nem tanto.

O que torna O Informante um bom programa é justamente a sua verossimilhança. Baseado em uma história real, o filme desenvolve muito bem a seqüência dos acontecimentos, assim como suas motivações. Os personagem são muito bem definidos. Afinal, por mais motivos que Crowe (brilhante! Vai disputar o Oscar com Kevin Spacey no tapa) tivesse para ficar calado, ele ignorou todos eles e colocou a boca no trombone. E por quê? Porque é tipicamente humano (embora nem todos façam) querer contar um grando segredo quando surge a oportunidade. Basta um empurrão e pronto... o sujeito dá com a língua nos dentes. O mesmo vale para a esposa de Crowe, insegura e confusa com a demissão do marido e com as conseqüências da denúncia. Natural. Nada mais humano do que encontrar saídas simples quando parece não existir solução. E a regra vale para todos os personagens. Decisões impulsivas, diálogos contraditórios, hesitação. Tudo mundo típico do Homo sapiens, tudo lá, na telona, para quem quiser ver. Até quando a companhia tabagística ameaça Crowe a coisa é feita com critério. Nada de carros explodindo ou tiros para todo lado. Apenas o necessário para deixar o protagonista perturbado.

Michael Mann optou por um estilo de direção mais realista, semelhante ao visto na série de TV Nova York Contra o Crime (NYPD) ou nos filmes do dogma dinamarquês. Câmeras tremendo e lentes fora de foco enchem a tela. O recurso, criticado e criticável, cai bem no filme, que dá mais uns passos em direção ao real.

 

O INFORMANTE (The insider, EUA, 1999). De Michael Mann. Com Russell Crowe, Al Pacino, Christopher Plummer. 160min.