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Onde está Woody?

Obra e autor se confundem em Desconstruindo Harry, comédia de primeira de Allen

Por Edilson Saçashima

Uma das atuais vertentes dos estudos literários busca identificar traços da personalidade do autor em suas obras. Influenciados pela psicanálise, alguns estudiosos acreditam que as páginas dos livros trariam vestígios da persona do escritor. Se adaptado ao cinema, Woody Allen seria um dos principais exemplos que comprovaria essa tese, pelo menos para muitos críticos. Não raro, eles vêem nos personagens interpretados pelo cineasta norte-americano um reflexo do próprio Allen. Mas qual será a opinião de Woody Allen a respeito disso? A resposta é o bem-humorado Desconstruindo Harry.

Neste filme, a obra literária de Harry Block (interpretado pelo próprio Allen) serve como instrumento para dissecar o autor. O estopim da trama se deve a uma publicação em que o escritor expõe todos os seus relacionamentos com amantes e familiares, tornando público fatos que diziam respeito apenas à esfera privada. Mais que isso, o espectador vê Harry se desdobrando em seus personagens. Um exemplo: uma de seus livros se refere a um ator (Robin Williams, numa atuação sem histrionismo) que fica literalmente fora de foco. Às vésperas de receber homenagem em sua antiga faculdade, o escritor também é acometido desse mal, pelo menos é o que ele imagina e a platéia do cinema vê. Neste instante, Woody Allen (ou seria Harry?) nos dá uma pista sobre a estrutura do filme, que seria apenas mais uma obra de Harry Block. O que a platéia vê pode ser mais uma obra do escritor. Desta forma, criador e criatura se confundem.

Mas o Harry do papel não é exatamente o mesmo daquele de carne e osso. O próprio escritor afirma em determinado momento do filme que "funciona perfeitamente na ficção mas não funciona direito na realidade". Assim, percebemos que o Harry Block verdadeiro busca suprir suas carências afetivas, enfrentar seus problemas emocionais no papel e, consequentemente, solucioná-los, fato que não ocorre na vida real.

Aqui podemos traçar um pequeno paralelo com Shakespeare Apaixonado (Shakespeare in Love, 1998), o grande vencedor do Oscar 99 e que levou a estatueta de melhor filme. Nesta película, o roteirista Tom Stoppard (que ficou com o prêmio de melhor roteiro original) parte das obras do grande dramaturgo para construir a vida de William Shakespeare. A ausência de informações precisas sobre o autor permitiu que o roteirista desse asas à imaginação. O filme mostra que diversas passagens de peças clássicas do dramaturgo, como Hamlet, tiveram inspiração em fatos "reais", vividos ou presenciados pelo inglês. Assim, os textos também são tomados como "versões" de fatos verídicos, como no filme de Allen. Mas, ao contrário de Desconstruindo Harry, só conhecemos a versão ficcional de Shakespeare, que é possível antever na sua obra e na imaginação do roteirista. A verossimilhança de "Shakespeare Apaixonado", portanto, se deve somente às referências às peças teatrais e não a vida do dramaturgo real. Se vivo, talvez Shakespeare estivesse rindo dessa suposta cinebiografia proposta por Stoppard, assim como Allen está se divertindo em relação a Desconstruindo Harry, uma resposta irônica do cineasta para aqueles que buscam nos seus filmes mensagens subliminares de sua vida privada.