Principal | Top 10 | Você Sabia...? | Filmes | Críticas | A bomba do mês | Editorial | Entrevista | Fale Conosco


O óbvio surpreendente

À Espera de um Milagre alia a mesmice dos roteiros sobre o bem contra o mal com momentos inspirados e criativos

Por Edilson Saçashima

 

Chamar o cinema de indústria pode soar estranho para alguns ouvidos. Afinal, o que caracterizaria o filme "Made in Hollywood" como sendo um produto feito em escala industrial? A resposta é complexa, mas À Espera de um Milagre pode servir como um exemplo.

O filme narra o cotidiano de um bloco de um presídio onde os condenados à morte aguardam o dia da execução. É nesse espaço que irá desenrolar os dramas de Paul Edgecomb (Tom Hanks) e cia. O espectador irá conhecer a tentativa do guarda Edgecomb de tornar a vida dos condenados mais digna, o prazer sádico do guarda covarde Percy Wetmore (Doug Hutchison), a amizade do preso Eduard Delacroix (Michael Jeter) com seu ratinho Mr. Jingles, o perigoso e maluco William "Wild Bill" Wharton (Sam Rockwell) e o misterioso John Coffey (Michael Clarke Duncan), um gigante acusado de estuprar e matar duas garotinhas mas que tem medo do escuro e guarda misterioso poder.

Essa trama, retirada de obra de Stephen King, se desenvolve sem sobressaltos e com fluência. Mais. Os lugares dos personagens são demarcados logo na primeira aparição na tela. Aqui já vemos uma característica de um produto tido como industrial. Não há espaço para ambigüidade. Logo na primeira cena, o espectador sabe quem é o vilão e quem é o mocinho da história. Essas características permanecem até o fim, ou seja, os personagens são absolutamente lineares, possuem o mesmo tratamento da primeira há ultima cena.

Assim, o espectador sabe que "Wild Bill" é um criminoso perigoso porque simula uma aparente catatonia para, em seguida, atacar os guardas. Percy Wetmore também não é flor que se cheire, afinal, mostra a sua insensibilidade logo na primeira cena, quando anuncia a todos que mais um prisioneiro está chegando para ser eletrocutado na cadeira elétrica ("Mais um homem morto", grita com prazer). Delacroix, no entanto, tem bom coração (a amizade com o ratinho fala por si). E Coffey? Um assassino de crianças que tem medo do escuro não soa estranho? Esse é o "mistério" que irá rondar as três horas de filme.

Essa demarcação de lugares é essencial para as cenas que se seguirão, pois reconhecer o bem e o mal fará com que o diretor possa "manipular" as emoções do espectador. Assim, ficamos horrorizados com a morte dolorosa e cruel de Delacroix na cadeira elétrica. Ficamos sensibilizado com a bondade de Coffey. E temos outra reação com o fim dado a Percy e "Wild Bill".

Tudo parece absolutamente arquitetado, planejado, para que o espectador tenha as reações desejadas nos momentos adequados. Nada foge ao controle do diretor ou produtor, tudo se encaixa com perfeição. Ou seja, um filme elaborado com a racionalidade empregada em um produto industrial.

É interessante notar que, desde o início, o espectador já sabe como o filme irá terminar por algumas evidências. A primeira e mais óbvia é que a história é fruto de um flash-back. Edgecomb já velhinho é o narrador, ou seja, esse não pode morrer durante o filme! Segundo: alguém conhece homens malvados que maltrataram até os que estão no corredor da morte e que foram contemplados com um futuro cor-de-rosa no cinema de Hollywood?

Apesar disso, o filme flui com desenvoltura e ainda guarda alguns trunfos na manga, como o epílogo revelador e que coloca tudo no seu devido lugar

Resumo da ópera: não é por ser um produto industrial e não artístico (obras com marcas de um autor, com histórias originais, etc.) que o filme deixa de ter seus valores. À Espera de um Milagre pode jamais constar de uma lista de clássicos ou obras de arte do cinema. No máximo será um passatempo ligeiro de alguma Sessão da Tarde. Mas, com certeza, irá proporcionar três horas de prazer e um pouco de emoção. O que não é de se jogar fora.

Em uma comparação esquemática, pode-se dizer que À Espera de um Milagre está para o BigMac, assim como os filmes de Godard estão para o caviar. Mas convenhamos. Um sanduba no MacDonalds de vez em quando não faz mal para ninguém.

 

À ESPERA DE UM MILAGRE (The Green Mile, EUA, 1999). De Frank Darabont. Com Tom Hanks, David Morse, Michael Clarke, Bonnie Hunt. 188 min.