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Sobre a insanidade social
Fritz Lang mostra a Hollywood como se faz cinema de primeira em
Fúria, sua estréia na meca da sétima artePor Luís Alberto Nogueira
Muito antes de Stanley Kubrick discutir a impossibilidade de o homem viver em sociedade com harmonia em Laranja Mecânica (71), Fritz Lang já discutia as mazelas mais íntimas do ser mais complicado do universo em obras-primas com o apelo de Metropolis (26), M – O vampiro de Dusseldorf (31)e esse Fúria (36), o primeiro filme de sua fase americana.
Austríaco, colocado à parte do nazismo por sua arte não-pura, Lang partiu para Hollywood porque não lhe sobraram melhores alternativas. E lá conseguiu logo de cara fazer o que a maioria absolutíssima, tenta, faz, acontece e não consegue até hoje – realizar cinema de grande qualidade.
Aqui, utilizando de Spencer Tracy (Julgamento de Nuremberg) como ninguém fez ou faria, conta a história da incapacidade da manutenção de valores em uma estrutura social viciada. Filho digno da América, o personagem de Tracy é um trabalhador com dignidade fria, aquele sujeito que não dá um passo em falso afim de manter o seu bom nome, o da sua família e o de seu país.
Como eu sei, você sabe e Fritz Lang também não desconhecia que nada é perfeito nesse planeta que recebe a alcunha de Terra, ele é preso injustamente por um crime que não cometeu – o seqüestro misterioso de uma pobre (provavelmente virgem) moça. Oportunidade ouro para o diretor discutir a mesquinhez dos seres humanos e a falência das instituições.
Para piorar ainda mais as coisas, um grupo de cidadãos alucinados invade a prisão local para fazer justiça com as próprias mãos. Outra alfinetada na pobreza do espírito do primata dominante do planeta – quando um semelhante está em dificuldades, o homem trata logo de aniquilá-lo como um impiedoso predador. É isso que parece dizer desesperadamente Lang por meio de suas imagens repletas de ódio, captadas por uma câmera pessimista e que lamenta a infelicidade da nossa imperfeição.
Por falar nisso, indo mais tecnicamente na questão, as tomadas em preto-e-branco de Lang expõem sua técnica refinada que desprezam qualquer necessidade de cor. É uma fantasia de luz e sombras tão maravilhosas quanto às de O Homem Elefante (80), de David Lynch. Possuem vida por meio do movimento seja do vento, da chuva ou dos personagens.
Se ficasse só nisso, Fúria já teria cumprido seu papel em apenas 30, 35 minutos. Mas resolveu mais a fundo, colocando o herói da trama como anti-herói, um recurso que só os gênios dominam sem vulgaridade, nos outros 60. O personagem de Tracy sobrevive e espera o momento da vingança, ocultando sua sobrevivência e manipulando (através de seus dois irmãos) o julgamento dos 22 autores do linchamento. Sua sede vingança é maior do que seu amor por sua noiva, maravilhosamente interpretada por uma sóbria e convincente Sylvia Sydney.
É um dilema que conhece razão de ser muito acima do bem e do mal. O cordeiro torna-se o lobo, metamorfose inevitável para quem é judiado pela existência. Mais uma confirmação da crueldade latente da vida. Essa discussão presente até o final, ao mesmo tempo e paradoxalmente, previsível e arrebatador, faz de Fúria um filme indiscutivelmente maior.
Fúria (Fury) EUA, 1936. Direção de Fritz Lang. Com Sylvia Sydney e Spencer Tracy.
Cotação: * * * * *