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Olhos abertos para Kubrick

De olhos bem fechados não é tão bom, mas serve como estímulo para se conhecer os clássicos do diretor

Por Fabio Bense

No ano de 1999 morreu um dos mais talentosos e ambiciosos cineastas de todo o século: Stanley Kubrick. Sua morte aconteceu, justamente, quando um longa-metragem de sua autoria estava prestes a ser finalizado (ainda na fase de montagem). Concluída, a película tornou-se seu testamento cinematográfico. Para os amantes do cinema, principalmente do bom cinema, a sua morte foi uma triste notícia. Mas, ao mesmo tempo, é emocionante ter a oportunidade de assistir na tela grande do cinema o último filme do homem que dirigiu obras primas do cinema, como 2001-Uma Odisséia no Espaço (2001: A Space Odyssey, 1968), Laranja Mecânica (Clockwork Orange, 1971), e, o melhor de todos, O Grande Golpe (The Killing, 1956), obra que influenciou filmes posteriores cultuados por público e crítica (Pulp Fiction, por exemplo). Se perdi o "canto de cisne" de Hitchcock, os últimos filmes de Godard, Truffaut e Nicholas Ray, a derradeira obra de Kubrick, De Olhos Bem Fechados, não poderia sair de cartaz sem que eu o assistisse no veículo para qual foi meticulosamente (como era feitio do diretor – um dos mais obsessivos cineastas na procura da perfeição de cada tomada) e originariamente concebida.

Não houve, desde o início da história do cinema, cineasta mais audacioso e ambicioso que Kubrick. Em 2001- Uma Odisséia no Espaço, estas características alcançaram o paroxismo, quando o cineasta deu a sua versão da origem e evolução da humanidade. Resultado da "pretensão": imagens belíssimas, que nunca sairão da memória do espectador do filme, uma obra de raro qualidade e de grande impacto.

Com a morte de Kubrick encerra-se não só a carreira do cineasta, mas uma atitude de cineasta, que passa a estar em extinção. Características como o arrojo e pretensão, que característica todo artista genial que possui a consciência da sua genialidade; a coragem de não se preocupar em ser digerível para o grande público e o gosto pelo incerto e pela polêmica (que cineasta ousaria filmar, ainda no início dos anos 60, o escandaloso romance Lolita, que conta a atração de um senhor de meia-idade por uma jovem de 14 anos) são raras de se notar nos atuais cineastas, atrelados a suas produtoras e seus objetivos de lucro. Kubrick também possuía um extremo apego a seus filmes, de tal maneira que filmava determinadas cenas inúmeras vezes até que o resultado final estivesse do seu gosto. Pode-se dizer que poucos cineastas tem ou tiveram tamanho amor pela seu própria obra.

Mas a resenha pretende tratar de De Olhos Bem Fechados e não somente sobre a vida e obra do genial cineasta. Sobre o filme citado, antes de mais nada, é preciso ratificar o que já foi dito em outras críticas: realmente o filme é menor do que Kubrick, menor do que se poderia esperar de uma obra assinada por Stanley Kubrick. Em sua carreira, há muitos filmes melhores, superiores em qualidade e, principalmente, criatividade.

Entretanto, De Olhos Bem Fechados é um bom filme, muito superior a maioria das filmes produzidos na década. Tom Cruise é o médico e marido "certinho" da esposa também supostamente correta quanto a fidelidade ao marido, vivida por Nicole Kidman (mulher de Cruise na vida real, o que dá impressão ao espectador, por boa parte do filme, de estar invadido a privacidade da família "Cruise"). O máximo de "rebeldia" que o casal infringe aos princípios do bom mocismo é fumar um baseado de vez em quando. O sexo entre eles é o mesmo dos casais esclarecidos dos nossos dias, mas, é bom que se diga, a transa é entre eles, pois o adultério é uma espécie de crime maior, que ainda não tinha sido posto em prática por nenhuma das partes.

A rotina do casal segue o seu curso. Não há profundas transformações na conservadora "família" Cruise (que conta também com a filha de pouca idade), embora o casal esteja sempre na fronteira de desafiar as regras de fidelidade, através dos flertes em luxuosas festas. Mas, considerando a beleza dos personagem e sua juventude, tais flertes são considerados inofensivos pelos participantes deste jogo de boa conduta familiar.

A citada rotina do casal é habilmente retratada por Kubrick e seu talento em utilizar a música para explicar o que se passa na tema: cenas do cotidiano se desenrolam ao som de uma valsa no fundo, demonstrando o quão tedioso pode ser considerada a vida dos personagens, assemelhando-se com ritmo francamente marcado de uma valsa.

Bem, as coisas iam nesta maré até que Kidman declara, justamente após as "subversivas" baforadas de maconha, que já traiu Cruise, pelo menos em pensamento, com um oficial da marinha, presente numa festa que Kidman também estivera presente. Tal revelação abala profundamente Cruise, que um tanto injuriado pelo que a esposa acaba de contar, quer ir a desforra, procurando aventuras sexuais pelas esquinas de Nova York.

Este era, pretensamente, o ponto de partida para o filme "decolar", para a ação do filme. E De Olhos Bem Fechados decola, mas com problemas. O motivo, descrito acima, para a transformação de Cruise rende algumas cenas que derrapam em clichês, com Cruise imaginando, por vários trechos do longa, Kidman se entregando ao tal oficial da marinha. Tais cenas são rodados em preto-e-branco. São "batidas" e pouco convincentes, lembrando mais os filmes que passam na Bandeirantes de sábado à noite. Além disso, por mais que nestas cenas Kidman faz caras e bocas, é difícil aceitá-la como adultera, talvez pelo seu jeito "eternamente" pudico.

Com o desenrolar do filme o espectador mais exigente percebe outras escorregadelas do roteiro (como a prostituta que aparece do nada e se oferece para Cruise, talvez, simplesmente, por ele ser bonitinho; ou a superficialidade de alguns diálogos que tratam o sexo através de uma filosofia barata). Aliás, o tema principal, sexo, talvez seja o principal problema em De Olhos Bem Fechados. Não consigo me lembrar de um filme grandioso que tenha como tema as desventuras sexuais dos personagens centrais. Será (e é o que parece) que não há no tema sexo elementos suficientemente fortes para que deles um grande filmes possa se constituir??

Mas atrás das câmaras está Kubrick. A presença e "dedo" do diretor explicam os cenários sofisticados, com grande valorização de elementos como iluminação e cores (estas últimas ilustrando e fortalecendo, muitas vezes, o estado de espírito dos personagens num determinada cena do filme). Consequentemente, De Olhos Bem Fechados possui imagens belíssimas, da mais apurada técnica cinematográfica (como a perseguição noturna a Cruise pelas ruas de Nova York). Outro destaque em relação o esmero das imagens vai para as cenas da festa orgíaca, que acontecem numa mansão afastada da cidade, que já viraram clássicas. Tais cenas, que tendiam para um brega escandaloso ou há uma alusão infantil-debilóide de aventuras juvenis ao estilo Indiana Jones e o Templo da Perdição ou Enigma da Pirâmide, nas mãos de Kubrick resultam em cenas de rara força, geradas num processo de recriação do "velho" para o "novo", graças ao aparecimento de novos elementos, como a atmosfera barroca e misteriosa.

A partir da festa, o filme ganha força extra, e, surpreendentemente, passa de um drama sobre os hábitos sexuais de uma típica família americana para um suspense tenso o bastante para lembrar O Iluminado (The Shinning, 1980), grande filme de Kubrick estrelado por Jack Nicholson.

Bem, ao o término do filme, saí contente. Se alguém me perguntasse, assim que deixei o cinema, qual a minha opinião sobre o filme, teria respondido que adorei o último filme de Kubrick. Mas, após algumas indagações mentais e pessoais, surgiu um problema: eu não sabia (e até hoje não sei) o porquê de ter gostado. Talvez isto explique De Olhos Bem Fechados: o vazio filmado com talento; um vídeo-clip diferenciado de outros já feitos para o cinema (como Subway, por exemplo) pela direção talentosa e pelo coragem e arrojo de Kubrick, que, mesmo no final da carreira, quando seria muito cômodo realizar uma obra de fácil apego tanto para críticos como para o grande público, resolveu trabalhar com elementos até então não enfocados de sua obra, demonstrando que a curiosidade e pretensão que todo o artista, no significado pleno da palavra, possui, continuava presente em seu espírito. Ainda bem que De Olhos Bem Fechados possui certa consistência e arrojo, pois apenas ter imagens bonitas não salvaria uma obra assinada por Stanley Kubrick da decepção. Afinal, os vídeos-clipes de George Michael e de Madonna também tem imagens belas.

Devido também ao espírito pouco preocupado em ser digerível pelo público do diretor, De Olhos Bem Fechados não suprimiu características que costumam desagradar ao público dos vídeo-clipes, como o fato de ser longo e por vezes lento (talvez seja por isto que a avaliação do público não costuma render elogios ao filme)..

Vale a pena assistir o filme. Nem Cruise o estraga. Aliás, justiça seja feita, a sua interpretação é correta. Imagino que os admiradores de Kubrick estranharam um ator tão politicamente correto trabalhando com o excêntrico diretor, cuja filmografia conta com a colaboração de atores desvairados como Malcom MacDowell, George C. Scott e Peter Sellers. E, realmente, já ouvi muita gente falando mal do trabalho de Cruise no filme. Mas quem poderá imaginar outro ator para o papel?? Para viver um médico certinho, Cruise é o homem certo no lugar certo. Acho que os descontentes poderiam buscar "consolo" nas interpretações mais tresloucadas dos atores coadjuvantes de De Olhos Bem Fechados, como a surpreendente atuação de Sidney Polack e do ator que vive o dono da loja que vende fantasias.

Aliás, em relação as interpretações, me agrada menos o trabalho de Kidman do que o de Cruise (vale ressaltar que, entretanto, ela foi elogiada pela maioria dos comentários sobre o filme). Ela cai no estereótipo da velha estória da mulher que se transforma aos olhos do marido, a "nova" mulher (isto me lembra figuras canhestras de cultura popular brasileira, como Regina Duarte – acho que pelos "Malu Mulher da vida" -- ou a cantora Simone que , vivia cantando aquela canção horrível sobre este tema. Tal lembrança me entristece profundamente). Resumindo, é a velha interpretação da mulher reprimida que se emancipa indignada com a indiferença e a prepotência de um marido que afirma nunca ter sentidos ciúmes pelas esposa, tamanha a sua convicção em si próprio. É certo que se trata de um problema mais de roteiro, mas, talvez, uma atriz mais "descolada" no papel faria com que o personagem ganhasse maior sensualidade (a cena de Kidman flertando na festa de início do filme -- que imagens bem filmadas, vale dizer -- é altamente "fake").