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Quase humano
Segundo filme de Lynch é um clássico sobre preconceito
Por EdilsonSaçashima
Homem Elefante se inicia com ares de filme de terror. A fotografia em preto e branco enfatiza o ambiente sombrio da Inglaterra do século 19 e, além disso, percebe-se a influência do cinema expressionista, em especial O Gabinete do Doutor Caligari, na concepção do cenário do circo de horrores. Todos esses elementos imprimem ao início do filme um clima de horror, que atinge o seu ápice com a revelação da face do Homem Elefante.
Mas o verdadeiro horror não está no corpo disforme de Merrick, portador de uma doença rara chamada neurofibromatose aguda. Para o cineasta, mais tenebrosa que a imagem de um homem totalmente disforme é a exploração da miséria humana. Se o "dono" do Homem Elefante o utilizava como atração de circo para com isso obter lucro, o médico o irá explorar em nome da ciência. Afinal, sob o ponto de vista de Merrick, qual a diferença entre se expor num circo ou numa convenção médica? Enfim, tanto para a equipe médica quanto para o empresário circense, Merrick não passa de um corpo a ser explorado.
No entanto, aos poucos John Merrick se mostra uma pessoa sensível e de grande vigor intelectual e, assim, irá se integrar a um pequeno círculo social londrino e cativar uma atriz de teatro.
Talvez a imagem que melhor sintetize esta bela parábola sobre a natureza humana seja a cena em que Merrick constrói uma maquete de uma catedral tendo como modelo apenas uma de suas torres. "Como não a conheço por inteiro, tenho que imaginar como ela é", diz. Desta forma, Lynch pontua o processo de inserção de Merrick na sociedade paralelamente à construção da maquete. Assim como Merrick tem apenas uma visão parcial da catedral, a sociedade londrina somente conhece o corpo disforme do doente. Não é a toa, portanto, que Merrick irá concluir sua obra no instante em que ele irá deixar de ser simplesmente o Homem Elefante e alcançar o status de Ser Humano, irá, enfim, ser visto como um todo.