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Suspense eficiente
Embora não muito original, Cova Rasa é bom passatempo
Por Fabio Bense
É um enredo, no mínimo, promissor: grupo de três jovens, aparentemente unidos, decidem abrir vaga para mais uma pessoa no apartamento que residem. Aceitam o novo inquilino após uma rígida seleção. No entanto, o novo hóspede morre poucos dias depois, deixando uma maleta cheia de dinheiro. Os jovens então decidem então esconder o corpo e ficar com o conteúdo da mala. Mas as coisas não saem tão bem como planejadas.
Se a estória é boa, a realização é quase excelente. Sem dúvida, Cova Rasa, 1994, é um dos bons filmes feitos nesta década. Trata-se de um suspense escocês com direção de Danny Boyle (que posteriormente dirigiria o ótimo Trainspotting) e estrelado por Ewan McGregor (também protagonista de Trainspotting e que interpretou o jovem Obi-Wan-Kenobi, de Guerra nas Estrelas 1 – A Ameaça Fantasma).
Porém, antes de mencionar as qualidades do filme, cabe aqui uma observação: é um pouco decepcionante, mas parece que boa parte dos bons filmes da década parecem seguir uma tendência, uma fórmula previamente estudada e já experimentada em outros filmes da década, o que lhes tira qualquer conceito de originalidade. São filmes que caminham por um terreno seguro, por uma linha definida. O intuito?? Agradar sem correr riscos e, com isso, desfrutar de boa bilheteria. É como se os produtores de hoje pensassem da seguinte maneira: bem, descobrimos o filão. Agora, vamos explorá-lo com competência.
Mas, como é este filão?? Resumidamente, é uma tendência que certos filmes tem de apresentarem em seus roteiros personagens principais que fazem parte de uma turma de jovens. Seguindo-se a fórmula, neste "núcleo" o convívio é, aparentemente, uma maravilha. A união é tão grande, que o grupo humilha outros jovens que tentam entrar para o "clube", por estes apresentaram comportamentos que, digamos assim, não são muito respeitados . Lá pelo meio do filme, acontece alguma coisa que interfere no bom relacionamento das pessoas do grupo. No fim, alguém banca o esperto, engana os outros (talvez uma apologia ao individualismo ou então, a tempos amorais, nos quais o indivíduo mais "malandro" sempre acaba rindo por último), sempre de uma maneira surpreendente.
O parágrafo acima é, em minhas palavras, a descrição do enredo de Cova Rasa. Também é, praticamente, o roteiro de Trainspotting. Outros filmes desta década apresentam pelo menos um ou dois ingredientes da receita acima (posso citar pelo menos um exemplo que vem logo na minha cabeça, Três Formas de Amar).
Mas, feita a constatação, que atitude tomar?? A resposta é difícil e gera pensamentos complexo que, francamente, não estou a fim de realizá-los. Também não me agrada a idéia de procurar o responsável pela idéia original. Mas, posso dar uma pista: na minha opinião, é preferível uma obra não original (é claro que não a ponto de se caracterizar o plágio, o que ainda não observei nos filmes da década) do que uma desprovida de atrativos. Em outras palavras, tudo vale a pena, com as considerações descritas nas frases entre parênteses do parágrafo anterior, desde que o filme não seja ruim.
Pode-se até tentar descobrir mensagens reveladores, que marcam uma época, na "receita" descrita há pouco: o fenômeno da mixagem, que está na própria natureza desta "receita", em que para uma idéia comum os filmes acabam por desenvolver conseqüências próprias, gerando uma pequena, mas enfim, originalidade; também uma fina observação que captou a tendência moderna de seres humanos formarem "núcleos" de poucas pessoas, mostrando as dificuldades dos relacionamentos do homem contemporâneo. E, finalmente e como já se disse, o individualismo, que cedo ou tarde prevalece sobre o grupo diante de algo que gera uma cobiça individual entre as pessoas.
O que realmente interessa é que Cova Rasa é um bom filme . Dificilmente alguém sairá decepcionado. Não é bem um suspense aos moldes de Hitchcock. É um filme que incomoda e que choca pelas conseqüências das atitudes dos personagens. Gera tensão, mas não através da sutileza, como o que acontece nos filmes de Hitchcock. É uma tensão resultante de cenas violentas e da gradual neurose dos personagens. Vale lembrar que o filme retrata um grupo de jovens aparentemente sadios, mas que , no desenrolar do filme, tornam-se doentios ou amorais. Há muita ênfase nesta transformação e, como ela é lenta e primorosamente retratada, observá-la gera um certo desconforto sadio ao espectador.
De certo modo, Cova Rasa é um Tesouro de Sierra Madre moderno. Ambos os filmes mostram que o dinheiro é capaz de outras "proezas" além de sonhos materiais: acabar com amizades, modificar personalidades e comportamentos e gerar desconfiança mútua a todo instante. Quanto a Ewan McGregor, uma das novas "manias" do cinema moderno, sem dúvida é um bom ator. Talvez, um dos melhores da nova geração. O filme proporciona observar McGregor bem novato, ainda de cabelos compridos (o filme é anterior a Trainspotting, ao contrário do que muitos pensam). Alguns críticos consideram que suas colaborações com o diretor Boyle lhe rendem atuações bem melhores do que em superproduções como Ameaça Fantasma, por exemplo.
Cotação: ***