Principal | Top 10 | Você Sabia...? | Filmes | Críticas | A bomba do mês | Editorial | Entrevista | Fale Conosco
O que aconteceria se...
Corra Lola, Corra é videoclip que conta três versões de um mesmo argumento
Por Edilson Saçashima
Lola (Franka Potente) tem apenas vinte minutos para conseguir a fortuna de 100 mil marcos e salvar o pescoço de seu namorado Manni (Moritz Bleibtreu) das garras de perigosos criminosos. Esse é o argumento um tanto banal que Tom Tykwer utiliza para apresentar três desenvolvimentos diferentes da trama. Em cada uma delas há modificações substanciais que dão um novo colorido à história. Por exemplo, Lola cruza com uma senhora com um carrinho de bebê que terá um destino diferente em cada uma das versões.
Para os cinéfilos, a primeira impressão que fica de Corra Lola, Corra é a de que o filme é uma versão em ritmo de videoclip de Rashomon, de Akira Kurosawa. A estrutura é a mesma: um único fato que ganha versões diferentes de cada narrador. Mas as comparações param por aí. Enquanto que o clássico japonês de 1950 discutia a impossibilidade de se alcançar a verdade, o filme alemão parece mais um exercício de virtuosismo. Afinal, como justificar uma obra que abusa de efeitos visuais — como o uso de animação, divisão da tela em duas ações distintas, movimentos de câmera que procuram ângulos inusitados — que não levam a lugar algum? Mesmo os diferentes destinos propostos para os personagens que atravessam o caminho de Lola parecem meros apêndices de luxo. Para ficar no exemplo citado acima, os três futuros prováveis para a senhora com o carrinho de bebê não têm qualquer influência para o desenvolvimento da trama.
Além disso, o diretor não consegue manter a tensão provocada pelo tema da "corrida contra o tempo", tão tradicional nos filmes de suspense. Essa impressão se deve ao fato do filme se reduzir quase exclusivamente à personagem principal correndo pelas ruas. O filme tenta manter a atenção do espectador somente com o drama de Lola em conseguir dinheiro em um curto período de tempo. Em imagens, isso se traduz na personagem principal gastando a sola do sapato de uma esquina a outra.
No entanto, esses contratempos não interferem na fluência de Corra Lola, Corra. Isso graças à eletrizante trilha sonora tecno, em grande parte composta pelo próprio diretor e cantada por ele e pela atriz principal. Mas sem a música, não sobra muito para se contar.
Uma pena que o filme fique restrito à trilha sonora. Tykwer tinha em mãos uma proposta bastante rica: trabalhar com as infinitas possibilidades dos fatos. Afinal, quem nunca se encontrou elaborando conjecturas sobre o que aconteceria se determinado fato (não) tivesse ocorrido? No final, poderia se chegar à discussão do livre arbítrio ou da imutabilidade do destino. Infelizmente, essa questão ficará para a próxima oportunidade. Por enquanto se deve contentar com um videoclip ligeiro de 82 minutos. E só.
CORRA LOLA, CORRA (Lola Rennt, ALE, 1998). De Tom Tykwer. Com Franka Potente,
Moritz Belibtreu, Herbert Knaup,Eva Petri. 82 min.