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Uma "cópia" de cólera

A adaptação cinematográfica do livro de Raduan Nassar peca pelo mesmo motivo que a salva: sua fidelidade.

Por Igor Ribeiro

Cada coisa no seu lugar: perguntemo-nos primeiro quão grande é o mérito de Aluizio Abranches no resultado que obteve com seu Um copo de cólera (Brasil, 1998/1999, 72 min., adaptação cinematográfica da obra de Raduan Nassar de mesmo nome, de 1978), para que tanta gente pasme diante do filme. Para que a questão não soe tão grosseira (sei que alfinetei opiniões), indago aqui a perplexidade da crítica unilateral. E quando menciono crítica unilateral, refiro-me àquela que – agarrada a sua memória ou conformada com sua preguiça – analisa a causa e não o efeito, as voltas e não o mote, a forma e não o conteúdo. E o problema dessa simples omissão, seja ela negligente ou desproposital, é que, além da probabilidade do lugar-comum, podemos até cometer algum tipo de injustiça. Mas, lógico, também não podemos tirar os valores da adaptação que realmente lhe cabem.

Muitas dessas adaptações são honráveis pela sua transformação fotográfica. Outras pelo seu detalhismo ou por sua genialidade. Algumas tornam-se memoráveis por sua criatividade, ou por sua qualidade técnica. E uma grande parte delas é bem sucedida justamente por sua fidelidade. Este é o caso simples (e esquecido) de Um copo de cólera: o filme é muito bom por que tenta ser, ao máximo, fiel ao livro. Em outras palavras: ele é muito bom por que o livro é melhor ainda. A obra de Raduan Nassar nos instiga por sua visceralidade literária, pelo minimalismo descritivo da narração, pela fúria das personagens. O filme é fiel a todos estes itens e por isso se deu bem.

Que o conteúdo da obra tenha alvoroçado a opinião intelectual quando foi lida é fato. Quando vista, então, trouxe à crítica a realização imaginária daquele mundo que já a havia deslumbrado. Esta, fechada pelo seu espanto, esqueceu-se do impacto de 20 anos atrás para, de maneira muito natural, render-se ao invólucro do cinema. Sentada em sua poltrona, com uma mão no queixo e com as pernas cruzadas, a crítica envolveu-se pela recriação de Branches. Seus olhos, antes fixos na tela, saíram da sala cheios de sensações prontas para serem derramadas sobre o papel numa generosa exaltação. Nessa empolgação até os diálogos fielmente transcritos tornaram-se qualidade – em vez de reprovações como muitos haviam imaginado. Lógico, os diálogos no livro, por mais literários que sejam, formalmente são muito bons e estereotipados - exatamente como pede a linguagem cinematográfica para que daí construam-se boas personagens para a tela. Se somarmos a isso que as personagens foram encarnados por Júlia Lemmertz e Alexandre Borges, que além de serem excelentes atores são também conjugues na vida real (e sua escalação não me parece ter sido tão sem querer assim), a pintura dos parceiros naturais – amantes, ardentes e problemáticos – impressiona ainda mais pela sua realidade.

Ao ver as primeiras cenas do filme, recordei-me da descrição ambiental do livro quase que instantaneamente. A casa que imaginava ao ler a obra, e a movimentação dos personagens pelo lugar também me foram muito familiares. Assim como a batalha verborrágica das personagens principais foi sendo impressionantemente resgatada da minha memória. Tinha lido a obra de Raduan Nassar pela última vez há dois anos, e é como se tudo se refrescasse novamente em minha cabeça. Ao sair do cinema, aquilo havia me abalado e, é lógico, derramaria também cascatas de louvor se não fosse, antes, dar uma espiada no livro e fazer uma análise um pouco mais criteriosa.

Depois dessa verificação, o conceito de adaptação fica relativo, pois ela pode ser considerada até o ponto em que determinado número de coisas em uma obra literária tenham sido modificadas para que fossem repassadas através de uma câmara. Releituras são subjetivas por que a partir de algo já existente constroem-se paralelos ou versões transfigurados por uma diferente visão - não necessariamente mentirosas mas inteligíveis a partir de certo ponto de interpretação. Adaptações, diferentemente, são claras por sua objetividade. Aumentam a fronteira dos sentidos ou lhes dão novas opções a medida em que apresentam um trabalho numa forma diferente, mas com um mesmo conteúdo. Em Um copo de cólera, por exemplo, não se pode dizer que tenha sido uma adaptação livre por que de nada ela se liberou da obra original, manteve-se presa à ela o tempo todo – o que não é condenável, mas pelo contrário, evitou um risco do diretor e manteve a integridade do filme e sua qualidade contextual – na verdade, a do livro. Vemos nada mais nada menos que o riquíssimo texto de Nassar na forma de imagens.

Para que sejamos justos, Aluisio Abranches não fez mais nada do que realmente pedia uma direção normal: dirigir – e desculpem a redundância. A opção pelo casal de atores foi bem feita e sua interpretação foi bem conduzida; a escolha da locação também foi boa e as personagens fluem bem dentro dela; o figurino também é muito apropriado, assim como a edição; e não esquecemos do texto e dos diálogos, que são geniais... Mas tudo bem. Afinal, já estava tudo lá. No livro.