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A Central é bela
Paranóico, o brasileiro insiste numa discussão ignorada pela mídia internacional
Por Igor Ribeiro
As portas do maior coliseu cinematográfico do mundo estão abertas. Podemos ver pisar a arena os gigantes gladiadores de língua não-inglesa. De um lado, representando o Império Romano, Robertus Benignius. Do outro, representando as colônias latinas, Walter Salles Júlio. Começa o combate, as apostas, a especulação. Quem vencerá a aterrorizante batalha? Depende do seu conceito de derrota, caro leitor.
Se para você derrota significa gastar milhões de dólares para ver seu filme participar de uma festa de premiação injusta e megalomaníaca, como tem sido o Oscar há tempos, então Salles Júlio certamente sairá ensangüentado.
Apesar de ser inegável o espaço ocupado por Central do Brasil (de Walter Salles Júnior. Brasil, 1998, 115 min.) na mídia mundial, o Oscar não é uma simples cerimônia de entrega de prêmios - ele requer de um filme campeão muito mais do que publicidade. No caso de A vida é bela (La vitta è bella, de Roberto Benigni. Itália, 1998, 122 min,), falarei em número e objeto: 15 milhões de dólares em marketing. E prepotência passa longe deste raciocínio, basta verificar as aspirações de Benignius diante da Academia. Quem foi indicado para "melhor filme", "melhor filme estrangeiro" e outras 5 categorias, e certamente não vai ganhar "melhor filme" (enquanto temos mais uma coqueluche hollywoodiana sobre guerra), fatalmente ganhará "melhor filme estrangeiro". A ratoeira está armada.
As mazelas decorrentes da batalha entre Salles Júlio e Benignius podem ser amenizadas, no entanto, se mais freqüentes forem as fagulhas de esperança que gente como Richard Schickel, crítico da revista americana Time, dá ao patriotismo brasileiro. Não quero cair no lugar comum e vociferar palavrões contra A Vida é Bela e render elogios à Central do Brasil. Na sua coluna semanal sobre cinema, nessa revista que é o maior semanário de informação do mundo, Schickel já fez isso por mim. No dia 14 de dezembro de 1998, Central saía em um parágrafo curto na parte de resenhas, sem títulos ou fotos, porém com uma racionalidade entregue à magia do filme. Vinicius de Oliveira é "intrigante e encantador" no papel de Josué; Fernanda Montenegro fica "descompromissada" diante de Dora. E fecha: "Suas imagens (de Salles), assim como sua narrativa, são claras, muitas vezes naturalmente amáveis, e calmamente, poderosamente assustadoras". Algumas semanas antes, no dia 9 de novembro de 1998, Richard Schickel mandava suas frias cartadas com 5 parágrafos de crítica nervosa a A Vida É Bela. Abre com o título-bomba: "Fábula Fascista - Uma farsa que trivializa o horror do Holocausto". Desenvolve um raciocínio detalhista sobre as intenções do filme. Trata a narrativa do diretor como algo ideologicamente maquiado, para transfigurar fatos e conceitos sobre o que foi o massacre dos judeus, como o fascismo italiano - que poupou a maior parte da comunidade judaica de seu país, após acordo com a aliada Alemanha.
Mas lembremos que a retórica de Schickel veio em momentos separados. Em seus textos, não houve crossovers entre as duas produções. Esporte este que tem sido muito praticado pelos brasileiros nos últimos tempos, atestado também nas linhas acima. Preocupa-me nossa paranóia ufanista sobre o duelo dos gladiadores. Todo brasileiro enxerga A Vida é Bela versus Central do Brasil, com motivos mais do que plausíveis, mas propositadamente ignorados na mídia internacional. Na Internet, o site da revista de resenhas cinematográficas reVision, italiana, também comenta os dois filmes. Seria cretinice, e já o é, fazer este paralelo também na Itália - mas o que acontece é que, de fato, a comparação não existe. Os dois filmes são creditados de maneira inteligente - e assim, separados, sem menções a prováveis conquistas e disputas, parecem profetas e amigos. Aliás a crítica internacional, em geral, dá pouco valor ao duelo. É possível observar otimismo e amabilidades nos textos sobre ambos os filmes, sem observar referências. Para falar a verdade, o fato de A Vida é Bela tratar de um trágico acontecimento histórico, traz a este injúrias mais freqüentes. Mas para se conseguir injuriar Benignius, não se usa o artifício de engrandecer Salles Júlio. E a suposta altivez de Salles não o torna vencedor.
Neste caso, o derrotado, caro leitor, não é aquele que compete com suporte milionário, ou aquele que participa da batalha com o rabo entre as pernas. Os derrotados somos nós, que fazemos apostas vazias neste grande e sistemático coliseu.