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Filme para ouvir
Buena Vista Social Club agrada aos ouvidos e aos adoradores do american way of life
Por Edilson Saçashima
O alardeado documentário Buena Vista Social Club tem todos os elementos que fazem cinéfilos e amantes da música ficarem com água na boca, afinal, o filme tem seu pilar em Wim Wenders – um cineasta consagrado e autor dos já clássicos Paris, Texas e Asas do Desejo – e na nata da música cubana e, por que não, mundial. Some-se a isso, a trilha sonora de chacoalhar as cadeiras e uma história simples mas de profundo valor emocional. Mas algo não se encaixou com perfeição nesse quadro e o resultado ficou abaixo do esperado.
O filme conta a passagem do produtor e músico Ry Cooder por Havana, a capital de Cuba, onde reúne as feras da música cubana para gravar o disco "Buena Vista Social Club", que ganhou o tradicional prêmio Grammy. Feras é um adjetivo simplório para denominar a verdadeira constelação de astros de alto quilate que passeia pela tela na hora e meia de projeção.
As lendas vivas da música cubana alcançam a consagração internacional se apresentando em Amsterdã e no templo das casas de espetáculos Carnegie Hall, em Nova York. Mas a vida cotidiana dos músicos Ibrahim Ferrer, Compay Segundo e companhia é modesta, quase humilde. Pelo menos é o que destaca a câmera de Wenders.
O cineasta contrapõe cenas do cotidiano dos músicos com os shows. Assim, a tela é tomada por opostos, quase contraditórios. Aquele senhor com uma sacola de plástico sentado em um banco da praça é um talentoso músico. O autor de canções consagradas tem o hábito de oferecer rum a sua santa protetora. O mestre do piano fica relegado a um canto durante uma aula de balé numa academia modesta de Havana.
Pior é a superficialidade com que os personagens são tratados. Os músicos parecem ser apenas pessoas humildes esquecidas pelo público e que têm uma vida sem mordomias. Assim, a visão de Wenders parece ser a de um turista ou de um fã que está descobrindo esses músicos. É pouco para um cineasta do calibre do alemão e para um gênero que se aproxima do jornalismo e, portanto, imagina-se uma pesquisa mais profunda na produção dos filmes.
Mas essas questões são periféricas quando se tenta analisar o filme sobre o ponto de vista político. Wenders parece ter feito um documentário que exalta o american way of life e, consequentemente, critica o modelo político cubano. As cenas feitas em Havana estão sempre impregnadas de escassez, carência, modéstia. Vemos carros e aparelhos antigos, quase arcaicos, circulando nas ruas ou dominando os lares. Os próprios músicos parecem retratos dessa política cubana, segundo a visão de Wenders, afinal, eles não pessoas de poucas posses, humildes e modestos. Quando os encontramos em Nova York, o tom muda. A trupe de Ferrer e Compay Segundo parece absolutamente hipnotizada pela Big Apple. Ficam deslumbrados com as vitrines, com os arranha-céus, etc. É terno e quase cômico assistir à cena em que eles se deparam diante de uma vitrine e não conseguem reconhecer a figura de Marilyn Monroe, maior ícone da sociedade de consumo.
Mas nada disso estraga o prazer de ter durante cem minutos um filme agradável e com boa música, algo que está se tornando raro nos cinemas atuais.
BUENA VISTA SOCIAL CLUB (Idem, ALE/FRA/EUA/CUB, 1999). De Wim Wenders. Com Ry Cooder, Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, Rubén Gonzalez, Eliades Ochoa. 101 min. ![]()