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Muito sangue para pouco cérebro

Atuação de Denzel Washington é o único aspecto que se salva de O Colecionador de Ossos

Por Edilson Saçashima

 

Quando Hollywood encontra a formulinha certa do sucesso, fique ligado que lá vem uma enxurrada de filmes "clonados" do original. A bola da vez são os serial killers. Tudo começou com O Silêncio dos Inocentes, desde então a fórmula "assassino em série — mortes bizarras — dupla em sintonia fina (seja entre policiais ou entre bandido e mocinho)" tem sido utilizada à exaustão. Mas sejamos justos, algumas obras utilizam esses mesmos ingredientes mas tem escapado da mesmice, como o bacana Seven. A maioria, no entanto, mantém a regra e vira mais um fast-food indigesto. É o caso deste O Colecionador de Ossos.

Dessa vez a dupla é formada por Lincoln Rhyme (Denzel Washington), um especialista em desvendar crimes com pouquíssimas pistas, e Amelia Donaghy (Angelina Jolie), a talentosa novata da polícia. Eles se unem para desvendar mortes bizarras (olha ela aí). O modus operandi do lunático da vez é arrancar um pedaço de osso de suas vítimas (argh!).

"Como descobrir o criminoso só com esses dados" é a pergunta tradicional para esse tipo de filme. Neste caso, a dupla Lincoln-Amélia se debruça sobre os cadáveres a fim de tirar leite de pedra, ou seja, transformar um palito de fósforo em valiosíssima pista para encontrar o assassino. O pretexto é perfeito para o diretor se esbaldar em cenas de impacto (uma vítima sendo devorada por ratos, outra sendo "cozida" pela tubulação de gás, etc) e espantar o público com o raciocínio surpreendente do esperto policial para desvendar os intrincados crimes. Enfim, tudo para ser um novo Seven ou O Silêncio dos Inocentes.

Mas o efeito é o oposto. Enquanto que em Seven e O Silêncio dos Inocentes o horror era sugerido pelos diálogos (como na cena sobre a luxúria no filme de David Fincher) ou pela edição das imagens, em O Colecionador de Ossos a tentativa de ativar a adrenalina do público vem da super-exposição das vítimas. Assim, o horror da personagem de Angelina Jolie ao estudar o cadáver da vítima do gás se torna inócuo devido à excessiva duração da cena. O diretor ultrapassa o limite do susto, medo e horror para alcançar a sensação de mal-estar.

Mas isso é um pequeno detalhe. O pior é o desfecho da trama. Pobres serial killers se todos fossem tão panacas como o deste O Colecionador de Ossos. O criminoso desse filme é, no mínimo, inverossímil. Afinal, como alguém irá acreditar que uma mente tão perspicaz, que elabora crimes sofisticados, estaria apenas montando uma medíocre vingança contra Lincoln?

Para a sessão "nem tudo está perdido", vale ressaltar um ponto: Denzel Washington apresenta um trabalho digno como o paraplégico Lincoln. Já os produtores, roteirista e diretor da película parecem acometido de acefalia ou, no mínimo, de falta de criatividade e descaso com a inteligência do público.

 

O COLECIONADOR DE OSSOS (The Bone Collector, EUA, 1999). De Phillip Noyce. Denzel Washington, Angelina Jolie. 118 min.