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O espectador na pele do personagem

A Bruxa de Blair dá nova forma a tema tradicional do gênero terror

Por Edilson Saçashima

Um dos fatores que distingue uma grande obra cinematográfica contemporânea das demais é o uso criativo da forma para expressar um conteúdo já exaustivamente abordado. Afinal, após cem anos de história, são raros os filmes que trazem algum tema inédito às telas. No entanto, cineastas talentosos souberam inovar a linguagem cinematográfica a partir de assuntos tradicionais. É o caso de Martin Scorsese e seu Touro Indomável, em que o diretor norte-americano deu um novo enfoque ao universo do boxe. Recentemente, assistimos à agitação provocada pelas câmeras trêmulas dos dinamarqueses do Dogma 95. De certa forma, é esse mesmo pressuposto que explica o sucesso fenomenal de A Bruxa de Blair.

A história é arquetípica do gênero de terror. Três jovens mergulham na sombria floresta de Maryland com o objetivo de filmar um documentário sobre a lenda da bruxa de Blair. A empolgação inicial dá lugar ao terror quando fatos estranhos começam a assombrar o trio. Paralelamente, uma série de percalços vai deteriorando o relacionamento entre os três.

Tudo levava a crer que este seria mais um filme de terror caça-níqueis que passaria despercebido pelos cinemas mundiais, afinal, a história não possui nada de original para o gênero. No entanto, o grande achado do filme é a forma como essa trama é contada.

O filme a que assistimos é, na verdade, o material editado daquele grupo que se embrenhou nas matas de Maryland. Ou seja, o que o público vê é o próprio documentário. Só esse dado já garante o caráter verossímil da obra. No entanto, o diretor e o produtor do filme foram além. Detalhes sobre a lenda foram disseminados pela internet, os atores usaram seus nomes verdadeiros para as personagens, até mesmo entrevistas previamente marcadas não contaram com a presença dos protagonistas para que se passasse a impressão de que eles realmente desapareceram. Toda essa estratégia foi concebida para aproximar ao máximo o verossímil (o que poderia acontecer) do real (o que realmente aconteceu). Resultado: o filme que custou míseros US$ 45 mil já abocanhou mais de US$ 100 milhões.

Mas não é só a bem-sucedida estratégia de marketing que garante o sucesso de A Bruxa de Balir. A verossimilhança transmitida pelo filme permite identificação maior entre o espectador e os personagens, como se os fatos narrados fossem plausíveis de ocorrer ao público do cinema. Assim, compartilhamos do terror vivido na tela, como se ele dissesse respeito a nós.

Esse efeito é provocado pelas imagens sem clara definição, pela câmera sacolejante e pela falta de iluminação. Essas "falhas" de produção passa-nos a impressão de estarmos vendo um filme caseiro, ou seja, assistindo a uma obra feita por simples mortais como nós e não um filme concebido por profissionais da sétima arte. Forma-se assim uma relação de cumplicidade. Consequentemente, o filme nos convida a ser o quarto personagem e não simples espectadores.

Os filmes de terror tradicionais sempre nos colocaram numa posição cômoda na trama. Éramos observadores privilegiados da ação. Sabíamos que Freddy Krueger ou o Jason espreitava sua vítima, que nada sabia. O momento catártico se dava quando nossas expectativas se confirmavam ou não. A Bruxa de Blair subverte essa estrutura. Agora estamos na pele da personagem, sentimos sua angústia, sabemos tanto quanto ela. Nunca nos antecipamos em relação aos protagonistas, como ocorria em outras obras do gênero.

Decorrência disso é que o horror nunca ganha uma feição, ele é sempre sugerido, com isso, nossa angústia se prolonga jamais alcançando a catarse. De certa forma, essa estrutura remonta às origens do gênero terror, em especial àquela linhagem seguida por H. P. Lovecraft, em que o medo é decorrência daquilo que não se conhece.

A Bruxa de Blair, em certo sentido, veio exorcizar um mundo tomado por serial killers, psicopatas e monstros em geral. Só por isso, já vale uma espiadela, afinal, ela conseguiu escapar da fogueira da indiferença, fato raro para os filmes contemporâneos do gênero.

A Bruxa de Blair (The Blair Witch Project, EUA, 1999). De Daniel Myrick. Com Heather Donahue, Michael Williams e Joshua Leonard. 80 min.

Cotação: * * * *