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Que beleza!
Beleza Americana, do estreante diretor Sam Mendes, é o melhor filme do ano
Por Rodrigo Flores
Quinze dias antes da cerimônia do Oscar, Beleza Americana aparece como favorito para arrebatar as principais estatuetas da Academia. Não é para menos. Compará-lo com seus concorrentes é como confrontar a seleção brasileira com o XV de Piracicaba, ou o Ayrton Senna com o Pedro Paulo Diniz. Não tem comparação. Em uma categoria em que não disputam os melhores - onde estão Vivendo no Limite, De Olhos Bem Fechados e Tudo sobre minha mãe? -, Beleza Americana é barbada.
Tantos elogios não são de graça. O estreante diretor Sam Mendes fez uma leitura precisa e realista de nossa sociedade, sem se colocar em uma posição crítica ou inquisitória. Não há nem sinal do maniqueísmo típico dos comandantes das câmeras de Hollywood. Pode parecer pouco, mas isso basta para fazer de Beleza Americana um filme especial.
A história é contada a partir da perspectiva de Lester Burnham (mais uma vez Kevin Spacey provando que está acima da média), um típico adulto de meia-idade. Seu trabalho é maçante, sua vida sexual com a esposa é nula e seu relacionamento com a filha é distante. Um dia, após conversar com um adolescente, decide acabar com a rotina e aproveitar cada minuto intensamente. Até aí, nada de novo. A novidade está na forma de fazê-lo. Sam Mendes dissecou uma gama incrível de sentimentos e sensações humanas, e distribuiu isso em todos os personagens. Todos, sem exceção, são gente da cabeça aos pés. É impossível não encontrar as nossas próprias experiências e sensações em pelo menos um dos personagens.
Vamos as fatos: Carolyn Burnham (Annette Benning, muito bem no papel) é a mulher moderna, que luta por um espaço no mercado de trabalho, tenta parecer mais forte e decidida do que realmente é, e não entende a filha adolescente, Jane, que por sua vez é mal-humorada, acha ridículo tudo o que os pais fazem, tem complexos com o físico e pretende fugir de casa. Ou mesmo a amiga de Jane, Angela, que tenta sempre parecer o que não é, na típica crise de identidade adolescente. Qualquer semelhança não é mera coincidência.
Sam Mendes faz da tela do cinema um espelho, onde nós nos enxergamos, e assistimos perplexos aquilo que vemos e fazemos todos os dias. E, por incrível que pareça, isso pode ser mais chocante do que explosões, tiros, sangue e tripas. Basta ver a reação das pessoas ao final do filme. A maioria fica estática na poltrona, como se tivesse levado um soco no fígado. Apenas pessoas insensíveis ou pouco dotadas intelectualmente (estaria eu descrevendo alguns críticos de cinema? provavelmente...) não percebem isso.
E como se não bastasse, há cenas belíssimas, como as pétalas caíndo do teto durante o sono de Lester, ou a reação de todos os personagens durante a cena final.
E para aqueles que rotulam Beleza Americana como uma "crítica à sociedade americana", um recado: amigo, você realmente não entendeu nada do filme. Pare de olhar para o umbigo dos outros e olhe para o seu próprio... que deve estar nojento!
BELEZA AMERICANA (American Beauty, EUA, 1999). De Sam Mendes. Com Kevin Spacey,
Annette Benning, Thora Birch, Wes Bentley e Mena Suvari. 121 min.