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Corpos Ardentes é suspense dos bons
Por Fabio Bense
Você está cansado dos filmes de suspense feitos ultimamente, friamente calculados para satisfazer o espectador sem que este faça o cansativo esforço de pensar??
Filmes assim costumam render boa bilheteria nos cinemas e sucesso no mercado de vídeo, mas não conseguem satisfazer o espectador mais exigente. Mas, felizmente, ainda existem filmes de suspense, disponíveis nas prateleiras de uma boa locadora, que fogem esta regra. É o caso de Corpos Ardentes:, longa-metragem já um tanto esquecido pelo locador, devido a quase vinte anos de lançamento em vídeo (o filme é de 1981). Trata-se de um dos primeiros filmes do diretor Lawrence Kasdan (que também dirigiu o faroeste Silverado, Turista Acidental e escreveu o roteiro de Caçadores da Arca Perdida). É também a estréia da loura Katlheen Turner (de Tudo por uma Esmeralda, Crimes do Coração e A Honra do Poderoso Prizzi) no cinema.
No filme, Hurt vive um advogado da Flórida, sem muito sucesso na carreira, que conhece bela mulher (Turner), durante uma onda de forte calor em sua cidade. Nasce um erótico relacionamento entre os dois, que culmina no plano, elaborado pelo casal de amantes, de assassinar o marido de Turner (Crenna).
É, sem dúvida, um grande filme, que redescobre o clima noir dos clássicos dos anos 40, com todos os ingredientes do gênero: trama envolvente (onde não falta a mulher fatal, o adultério e personagens amorais que desfilam pela trama), final de impacto e muitas reviravoltas.
Há muitos detalhes no enredo dignos de nota. Analisando atentamente os acontecimento que se passam na tela, percebe-se, por todo o desenrolar da trama, um clima de desesperança quanto a moral do homem. E, também, uma certa melancolia no retrato da vida tediosa e sem perspectivas que o advogado interpretado por Hurt leva. Exercendo sua profissão numa cidade pequena e pacata da Flórida, EUA, ele divide seu tempo com os pequenos casos da profissão, os amigos e pequenas conquistas amorosas inexpressivas. Porém, tudo se transforma quando conhece o personagem vivido por Katlheen Turner, mulher casada, verdadeiro "vulcão" de sensualidade. O casal possui grande afinidade, principalmente em relação ao sexo. A partir de então, Hurt rejuvenesce, ganha nova vida, novo ânimo. Tudo ia bem até a chegada do marido de Turner (Richard Crenna, da cinessérie Rambo), empresário inescrupuloso, que lida com negócios obscuros. Hurt e Turner, diante do obstáculo a seus encontros, planejam seu assassinato.
O filme retrata muito convincentemente todo a "loucura" do personagem vivido Hurt, que, em frente a vida tediosa que levava e diante das novas e estimulantes "perspectivas", se arrisca a situações que poderiam levar ao descobrimento do adultério. "Cego" pelos encantos da nova "vida" acaba sendo o mentor intelectual e autor do assassinato. Depende, agora, da cumplicidade de Turner para sair-se ileso.
Porém, conforme as reviravoltas do filme se sucedem, Hurt vai descobrindo o verdadeiro caráter de Turner. Começa percebendo que, além do motivo amoroso para o assassinato do marido, Turner estava muito interessada na herança. Para piorar, a polícia descobre o envolvimento atual de Hurt com Turner, passando a investigar o passado do advogado. Das surpresas proporcionadas pelo personagem de Turner, às descobertas da polícia, Hurt vê-se metido num labirinto, numa verdadeira "teia" de aranha (provavelmente, de uma viúva negra) articulado por uma das mentes criminosas mais brilhantes retratadas pelo cinema nos últimos tempos.
O título original do filme, Body Heat, podia ser traduzido como excitação do corpo, numa clara alusão ao relacionamento vivido por Hurt e Turner. Mas também, numa explicação mais literal, parece referir-se à temperatura quente da cidade, que, segundo um dos próprios personagens do enredo, favorece com que os seres humanos se desliguem de suas atividades de praxe, da ordem, e acabem por se entregar a seus mais básicos instintos. Há várias cenas de sexo implícito (inclusive uma corajosa cena, por parte de Turner, atriz iniciante na época, de sugestão de sexo oral), mas elas não tem o intuito de rechear o filme com cenas de nudez, mas sim de explicar o tipo de relacionamento "selvagem" entre casal de amantes, e, consequentemente, explicar as atitudes insensatas que o advogado passará a tomar no filme inteiro.
As interpretações são ótimas. Hurt está correto como sempre. Turner, que em seu primeiro papel já se mostra uma intérprete absolutamente acima da média, perfeita. Vale ressaltar também a pequena aparição do jovem, na época, Mickey Rourke (de Coração Satânico e 9 &fraq12; Semanas de Amor), como o especialista em explosivos que ajuda Hurt a concretizar o seu plano. É uma boa oportunidade de perceber o quanto o ator está decadente atualmente, tanto do ponto de vista profissional, como fisicamente. Ted Danson (de Três Solteirões e um Bebê e Primo e Prima) prova que no início de carreira sabia representar, o que não vem acontecendo em seus últimos filmes, tendo uma boa participação como um dos amigos do personagem vivido por Hurt.
O diretor Kasdan realizou bons filmes depois de Corpos Ardentes, principalmente o faroeste Silverado, mas pode-se considerar que Corpos Ardentes seja o melhor. A trama é um pouco complicado, mas, o que é raro neste tipo de enredo, não há qualquer "furo" no roteiro, nem exagero nas reviravoltas. Tudo é verossímil e mostra o quão inteligente é o roteiro e o personagem vivido por Turner.
Trata-se de um grande filme, imperdível. Junto com Touro Indomável, Blade Runner e outros, um dos dez melhores dos anos 80. Resgata com extrema sinceridade o clima noir dos anos 40, especialmente do filme Pacto de Sangue, 1948, de Billy Wilder, do qual possui trama semelhante.