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Hitler na sala de estar
 O aprendiz apresenta uma versão inteligente e diferenciada do Nazismo
				Por Rodrigo Flores

O Holocausto é tema recorrente em Hollywood. A lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg, e A vida é bela, de Roberto Benigni (1998), são apenas alguns dos exemplos mais recentes e bem-sucedidos. Em sua maioria, encontramos uma abordagem reducionista e unilateral do fenômeno do Nazismo. Para quem está cansado de alemães ensandecidos, judeus indefesos e norte-americanos salvadores, O aprendiz (Art Pupil, EUA, 1998) é uma excelente pedida. Dirigido por Bryan Singer, o filme traz uma visão diferenciada e pessoal, mas não menos crítica do Nazismo. Ponto para o roteiro Stephen King (Um sonho de liberdade e O iluminado), seu primeiro feito exclusivamente para o cinema.

Interessado no Holocausto, Todd (interpretado pelo adolescente Brad Renfro, em uma atuação segura e convincente), um aluno brilhante, decide pesquisar mais sobre o assunto. Durante seus estudos, descobre que há um oficial nazista (o bom Ian McKellen) vivendo incógnito na vizinhança. O garoto começa a chantagear o alemão e promete não denunciá-lo à polícia sob condição de o nazista contar todas as histórias sobre a Segunda Guerra Mundial. A partir daí, Todd começa a modificar radicalmente seu comportamento.

A visão diferenciada de King é nítida desde o início. O oficial nazista é retratado na figura de um idoso, amargurado e recluso, que mantém uma rotina de vida acima de qualquer suspeita. Vive anônimo, fugindo do passado. Ele é ameaçado por um adolescente - bom filho e bom aluno, o sonho de qualquer pai - e, indefeso, não esboça reação. O garoto age como nazista, enquanto o nazista se defende como um garoto. A inversão de valores acaba com os estereótipos criados em volta do Nazismo. Ao estampá-lo na pele de um modelo social, Stephen King colocou o sentimento alemão dentro da casa dos espectadores, sentado na sala de estar. E é sentindo o Nazismo ao nosso lado que o suspense segue até o final.

As lições de O aprendiz são muitas. Talvez a mais importante seja mostrar o Nazismo como uma canalização negativa de instintos humanos, e não apenas a manifestação restrita a alemães loucos 50 anos atrás. Somente entendento o Nazismo é possível combatê-lo e enterrá-lo para sempre.