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Mas nem em VHS
Poucas coisas são mais frustrantes que o non-sense preguiçoso de Oito Milímetros
Por Igor Ribeiro
Geralmente, além de ter o óbvio pré-requisito de já ter visto determinado filme, armo-me de críticas diversas, aqui e no exterior, e de dados técnicos e históricos, para poder comentá-lo. Pois bem, começarei a falar de Oito Milímetros (8mm, de Joel Schumacher. EUA, 1999, 123 min.) - e admito que falarei muito mal -, abstendo-me de todos estes critérios. É triste pejorar uma obra de Schumacher quando lembramos de O Cliente (1994) e Tempo para Matar (1996), filmes que, pelo menos, têm sua expressão e sua partícula de originalidade dentro do cinema mundial. No entanto, assim como seu Batman & Robin (1997), Oito Milímetros é um filme cuja existência não adiciona absolutamente nada ao cinema, a não ser enumerações.
Não levanto aqui a necessidade de conclusão moral, ou de criatividade - explícita ou não - dentro de determinada obra para que seja relevante à opinião artística. Apesar de, no momento, não me vir na cabeça nenhum filme que não possua possibilidade de análise, seja por sua ambiguidade, qualidades técnicas ou inovação artística, não duvido que estes existam e que neles, ainda assim, possam ser destacados méritos e falhas. O problema é o fato de que Oito Milímetros não traz nada mais eficientemente que já não tenha aparecido de uma forma ou de outra anteriormente e, mesmo que traga, a eficácia do recurso é nula ou mal utilizada.
Para não ser injusto, talvez duas coisas mereçam destaque no filme: o personagem Max California (Joaquim Phoenix) e seu Trumam Capote; e, como bem disse meu amigo Luís Nogueira, do CineMix, o fato de conseguir ser menos pior que a produção anterior de Schumacher, Batman & Robin. Desculpem-me os fãs de Nicolas Cage (e coloco-me neste grupo), mas nem ele, que mesmo no dulcíssimo Cidade dos Anjos está muito bem, conseguiu salvar a película - o que me custa muito admitir. Joaquim Phoenix, no entanto, consegue realmente trazer aproveitáveis instantes de diversão para os telespectadores que, pelo que pude comprovar quase que unanimamente, passam a maior parte do tempo angustiados, esperando pela hora de se levantarem e deixarem a sala.
A suposta tentativa de originalidade do filme demora mais de uma hora para chegar e, ainda assim, quando nos atinge, é decepcionante. Quando todas outras perspectivas de suspense já falharam, esperamos ser surpreendidos pela revelação da identidade de um dos vilões. Machine, o principal "ator" dos snuff videos investigados por Tom Welles (Nicolas Cage), é perseguido até sua casa - numa das maiores sequências de chavões que já assisti na história do cinema - e, no embate final com o investigador, mostra-se uma pessoa normal. Frusta, com sua normalidade, Tom Welles e uma sala com 300 imbecis. Chega-se a pensar numa definitiva preguiça de roteiro, quando podia-se finalmente preencher a oca história à qual se assistia. A situação revela-se sem salvação ao vermos aquela montanha de sadismo em forma de gente tirar sua máscara de couro e colocar um óculos, enquanto brada, em tom de vitória, a coexistência de sua patologia e usualidade, estilo "cuido da mamãe e estupro menininhas".
A discussão sobre os meandros da psique humana, assim como o velho jogo entre bem e mal, mesmo que apareça escancaradamente, mostra-se repetitiva, simplista e sem utilidade. O filme não traz, definitivamente, reflexões ou choques que as propiciem, por mais que lide com um assunto tão delicado como é o submundo da pornografia. A atração pelo mórbido que guia a humanidade é lembrada e criticada, e isso vale a pena, assim como a exposição que fazem de um pacato aristocrata (o falecido marido da personagem de Myra Carter), revelando a asquerosa figura de um homem que controla as pessoas e obtém tudo que quer pelo capital. De resto, elabora-se uma arcaica pirâmide de estudo psicológico. Em cima, coloca-se a crítica à mentalidade humana, caracterizada pela dualidade e forte relação entre o bom e o ruim. Daí, espalham-se pelas bases as personagens dos dois lados. No time mal, o produtor dos snuff videos, o ator de seus filmes e autor dos assassinatos, um advogado corrompido e a memória de um velho obsceno. No time bom, uma família atingida pela obsessão de seu patriarca, uma viúva triste pelo seu achado e ansiosa por respostas, um rebelde empregado do sistema de criminalidade que tenta o abandonar e, por todos sustentados e colocados em conflito, o investigador - antes mero relator do crime - agora na débil incerteza entre sua antiga prática e a posição de vingador. Na realidade, só mais um hollywoodiano "mocinho contra bandido".
Você ainda acha isso uma complexa trama, merecedora da mais profunda análise e opinião? Não se iluda: alugue qualquer western na sua locadora, que você terá, além do enredo básico, diversão em boa dose.